quinta-feira, 20 de junho de 2019

Alemanha – passado e presente, lado a lado


Das coisas que nunca pensei em fazer e acabei fazendo, viajar para a Alemanha foi uma delas. Viagem é isto: nem bem acaba uma e já outra começa a ser planejada. Tem sido assim com o Sesc; vai-se pagando mensalmente até que na data da partida não há mais o que gastar, a não ser com algumas refeições, passeios opcionais e compras – ninguém resiste.
O nome da excursão era “Alemanha imperial e imponente”. Como sempre, não pesquisei nada a respeito do roteiro. Fui levada, como das outras vezes. Tudo era novidade. A única coisa que eu sabia era que a língua alemã é muito complicada. Felizmente, no grupo algumas pessoas tinham noções suficientes para garantir a comunicação básica e também teríamos a assistência de guias tradutores durante toda a viagem.


O voo saiu de Florianópolis na manhã do dia 5 de maio, domingo. No aeroporto de Guarulhos/SP embarcamos num avião da KLM rumo a Amsterdã, onde chegamos no dia seguinte e já decolamos para Hamburgo. Mal deu para ver os canais holandeses da janelinha do avião.

Hamburgo estava nublada. De vez em quando chovia. Entramos no ônibus que nos levaria durante todo o tempo na Alemanha. Nossa guia Jamila é uma cidadã do mundo, muito profissional e simpática, nascida na Argentina e atualmente residente numa ilha perto da África. Enquanto nos deslocávamos para o primeiro city tour, ela já passava as primeiras informações sobre o país. Por exemplo, são 16 estados independentes que compõem a República Federal da Alemanha (Deutschland), cuja população é de 83 milhões de habitantes ou mais (dados de 2015).
Durante toda a viagem várias expressões foram repetidas pelas diversas guias que nos apresentaram as cidades. Liga Hanseática, Segunda Guerra Mundial, reforma protestante, República Democrática Alemã (ou Alemanha Oriental), muro de Berlim, holocausto... Enfim, tivemos muitas lições de história e geopolítica neste curto período.
Hamburgo fica ao norte do país, é a segunda cidade em população – cerca de dois milhões – e também segundo porto mais importante da Europa, atrás de Roterdam, relatou a guia. A fábrica da Airbus está localizada na região. E sim, Hamburgo está mais de 100 km distante do mar, mas a navegação pelo rio Elba permite acesso às grandes embarcações.
A guia, vendo o grande número de viajantes do sexo feminino, contou que a cidade também detém a maior quantidade de homens solteiros e milionários do país. A informação agradou. Móin móin, expressão usada popularmente quando o assunto agrada, informou a guia.
Não percebemos, mas Hamburgo tem mais de 2500 pontes em seus inúmeros canais. Mais que Veneza e Amsterdã juntas. Vimos a torre e a catedral de são Miguel e descemos para observar a Rathaus platz, a praça da Câmara  Municipal e prefeitura da cidade livre e hanseática de Hamburgo. Fiquei muito curiosa para saber que árvores são aquelas na praça. Devem ter perdido as folhas no inverno, mas agora estão brotando de novo nos galhos cheios de bolotas. Estranho.

Disse a guia que mais de 70% da Alemanha foram destruídos na segunda guerra, mas historicamente, com a força da Liga Hanseática (associação de cidades comercialmente fortes), mais uma vez a cidade foi reconstruída.        

Apesar da chuva, deu para perceber que é uma cidade muito verde. Pelo menos 14% do território são ocupados por vegetação, informou nossa guia. Não há prédios muito altos. Passamos rapidamente pelo bairro Vermelho, cheio de bares e lojas, onde há uma rua fechada só para homens. A guia apontou que o país é o segundo maior consumidor de cerveja do mundo. Perde para a República Tcheca. Ela falou sobre a primeira sorveteria da Alemanha, que existe desde 1799.


O site da KLM explica bem a relação dos alemães com a igreja de São Miguel: “A cidade de Hamburgo exibe muitas grandes igrejas, mas a Igreja de St. Michael se destaca de todas as demais. “Michel”, como os habitantes de Hamburgo afetivamente se referem à igreja, pode ser vista de quase qualquer ponto da cidade. Esse símbolo de Hamburgo tem 132 metros de altura – aqueles que fizerem o esforço de subir até o alto do campanário serão recompensados com uma vista espetacular de Hamburgo e do porto”.

“Navegando pelo Lago Alster ou passeando pelas ruas do centro de Hamburgo, é impossível deixar de notar o telhado verde-menta da Igreja de St. Michael. Também é difícil ignorar seu som! Todos os dias, às 10h e às 21h, o famoso trompetista de “Michel” toca um solo de trompete do alto do campanário. Uma visita à igreja é imperdível e há muito a explorar. Siga a escada em caracol para admirar o maior campanário da Alemanha, ouça a impressionante música de órgão e descubra as criptas misteriosas.” E também: “Mas este lugar também foi marcado pelo infortúnio: “Michel” é a terceira igreja a ser construída no local. A igreja original, do século 17, foi destruída por uma forte tempestade de raios, e a segunda igreja pegou fogo durante os trabalhos de restauração em 1906. Quando você entrar na igreja, não deixe de olhar para cima: uma imagem de cobre retrata o Arcanjo Michael que protege o portal. A igreja barroca tem cinco órgãos em vários pontos. Aqueles que visitarem a igreja ao meio-dia se depararão com uma apresentação musical de 15 minutos no órgão principal.”
 
    
 

     “Para uma vista panorâmica completa de Hamburgo, suba os 453 degraus para o mirante. O carrilhão é um ponto de repouso bem-vindo a meio caminho do topo; o maior relógio da Alemanha apresenta o famoso Jahrtausendglocke (sino do milênio). É ótimo subir a torre à noite para admirar as milhares de luzes cintilantes que iluminam a cidade.”

Do ônibus fomos apresentados à Beatles-platz, no bairro de St. Pauli, em forma circular e preta, simbolizando um disco de vinil. Aliás, foi em Hamburgo que o famoso quarteto inglês deu início à carreira. Nosso passeio foi muito rápido. Não houve tempo sequer para fotografar, apenas uma cena ou outra.

Fizemos o check-in no Amedia Hotel e fomos jantar. O cardápio tinha salada, goulash e macarrão. Fazia 10 graus, mas não dispensamos a cerveja legítima alemã. O pôr-do-sol foi às 20h58. É primavera no hemisfério Norte e estava frio. Uma das guias, talvez a Jamila, nos disse que não há turismo na Alemanha no inverno. Eles têm que aproveitar bem a temperatura amena para garantir esta atividade que é uma das mais importantes para a economia alemã, a segunda, depois da agricultura.

Não falei ainda dos companheiros de viagem. Não gosto de citar nomes porque sei que muitos não gostam de serem expostos. Mas acho que minha companheira de quarto, a Ivanete, não vai se opor. Eu não poderia ter melhor companhia. Sabe aquele tipo de pessoa que não tem que provar nada para ninguém? Que vive sua simplicidade com a elegância de uma rainha? Que sabe manter o silêncio se não houver nada a dizer e este silêncio é tranquilo, sem pressão? Pois é ela, com seus mais de 70 anos bem vividos e ainda saúde e interesse suficientes para desfrutar a viagem. Foi um privilégio para mim.

7 de maio, terça-feira
O sol nos presenteou com seu brilho logo ao amanhecer. Saímos às 7h30, após o café da manhã. A temperatura estava um pouco baixa, mas não tinha vento quando saímos para Lübeck. As estradas que percorremos, todas, sem exceção, são perfeitas. E a velocidade, salvo em locais específicos, é liberada conforme a capacidade do automóvel e do motorista.

Nossa guia Carmen embarcou na praça da prefeitura. Seguimos por cerca de 70 km ouvindo as explicações da guia. Uma das coisas que ela falou bate com o que atualmente considero razoável: cerca de 80% da população vive em casas alugadas. Deixamos o ônibus num local onde havia banheiro e dali seguimos em direção ao centro histórico. Ela também contou sobre a Liga Hanseática e sua importância no século 13, quando era formada por várias cidades. O fim da liga deu-se com a concorrência da Inglaterra e Países Baixos. Ainda hoje há orgulho em pertencer a uma cidade hanseática, basta ver a placa dos veículos com a marca HH, indicando que a cidade de origem fazia parte da liga.
A paisagem não mudava muito. Plantações quase uniformes de colza, a planta que vira canola e biodiesel. Bonito de ver, campos amarelos a perder de vista. Mas a guia falou que a agricultura contempla o centeio, a batata, o girassol e a beterraba (de onde se extrai o açúcar). Devido à primavera, as árvores estão exibindo um verde claro luminoso que dói até de ver. Não há morros, nem casas, num contínuo sonolento. Mas pudemos perceber que as placas solares são muitas, muitas mesmo. Isto é animador.

“Lübeck foi fundada em 1143, tendo sido a primeira cidade ocidental na costa báltica. Ela é conhecida como a Rainha da Liga Hanseática, por ter sido o centro desta aliança mercantil que monopolizou o comércio sobre o norte da Europa e o mar Báltico entre os séculos 12 e 17. O centro medieval de Lübeck foi declarado Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco em 1987, e esta foi a primeira vez que uma cidade antiga inteira no norte da Europa recebeu este título.

O que não faltam são construções com rico valor histórico de diferentes épocas: Gótico, Renascentista, Barroco e Clássico. São igrejas, monastérios, becos, pátios, fortificações, casas burguesas, etc”. Estes parágrafos foram copiados do site www.7cantosdomundo.com.br.

Deixamos o ônibus num estacionamento perto da Porta de Holsten, ou Holstentor, construído entre 1464 e 1478 no estilo gótico tardio, uma fortificação que marcava o limite da cidade medieval. Acima do arco do portão há a inscrição em latim CONCORDIA DOMI FORIS PAX (harmonia em casa, paz no exterior). A impressão que se tem da edificação é que está afundando, semelhante à torre de Pisa. Seguimos a pé, cruzando uma pontezinha encantadora sobre o rio Trave, apreciando a paisagem bucólica e a imagem dos armazéns de sal, produto tão importante na época que valia tanto quanto ouro. Sal este que foi um dos motivos para a criação da Liga Hanseática, que instalou a rota do sal entre Hamburgo e Lübeck para usar na preservação do pescado e da carne.

O céu estava bem carregado, mas assim como chovia, de repente abria o solzão. Não foi só em Lübeck esta inconstância do tempo, pudemos comprovar em todas as cidades por onde passamos.

A guia local nos levou pelas ruas de calçamento de pedra e prédios, muitos deles reconstruídos após a quase total destruição durante a Segunda Guerra Mundial por bombardeios dos britânicos. Visitamos a igreja de São Pedro e a catedral de Lübeck. Ambas mostram sinais da guerra, que estão preservados para ensinar as lições da História. Mas há uma lenda divertida, que a guia nos contou. “Quando estavam construindo a igreja de Santa Maria, veio o diabo e perguntou o que eles estavam erguendo ali. “Uma grande taberna”, mentiram para não irritá-lo. Isto agradou o diabo e ele deu uma mão para que o edifício fosse construído rapidamente.Somente quando a igreja estava quase terminada, o diabo viu que o povo de Lübeck o havia enganado. Furioso, ele pegou uma enorme pedra para destruir o prédio novamente. Então o povo disse ao diabo que queriam realmente construir uma grande taberna bem ao lado, o Ratskeller. O diabo soltou a pedra para que ela caísse perto da igreja. E lá está ela hoje, com um demônio de bronze criado pelo escultor Rolf Goerler, sentado em cima.” Claro que todos quiseram fazer uma selfie com o diabinho.





Numa das igrejas havia um barco sobrevivente de um naufrágio. Algo importante, mas não anotei os nomes e lembrar nome alemão é um desafio e tanto. Quando eu souber mais detalhes, edito o texto aqui.

 Vimos a casa onde nasceu/viveu Thomas Mann (1871-1955), o escritor prêmio Nobel de Literatura de 1929, autor de “A montanha mágica”. A guia citou ainda dois cidadãos ilustres: Willy Brandt (1913-1992), ganhador do Nobel da Paz em 1971, e Günther Grass (1927- 2015), ganhador do Nobel de Literatura em 1999. Lübeck também é conhecida como a cidade das “Sete Torres”, devido às enormes torres de suas cinco principais igrejas. A igreja de Santa Maria é conhecida como a terceira maior de toda a Alemanha, enquanto a Catedral de Lübeck tem torres que atingem mais de 100 metros de comprimento.


Lübeck também é mundialmente famosa como a cidade do marzipan, um doce de origem árabe, preparado a partir de uma pasta feita de amêndoas moídas, açúcar e claras de ovos, que pode ser moldada e adicionadas essências. Em 1806, Johann Georg Niederegger abriu uma loja especializada em marzipans em Lübeck, a qual já forneceu o produto para reis e czares. Atualmente, Niederegger é a mais famosa produtora de marzipan de Lübeck, e um dos seus principais pontos turísticos, exportando os seus produtos para todo o mundo. Tivemos tempo para almoçar e provar a delícia que faz a fama da cidade.

Voltamos para Hamburgo, onde passeamos mais um pouco pelo centro, desta vez com o sol a iluminar as fotos. Retornamos ao hotel para jantar uma carne de porco com legumes.


8 de maio, quarta-feira
Malas e viajantes a bordo, seguimos para Berlim. Novamente observamos as plantações de colza, as placas de energia solar e as gigantescas torres de energia eólica. Na metade dos quase 300 km do percurso, fizemos uma parada necessária. Os banheiros são muito modernos. Para acessá-los, tem que depositar 0,70 euros. O bilhete que é emitido vale 0,50 euros para compras na lanchonete. Muito limpos e de higienização automática. Alguns aparelhos sanitários giram o assento para deixá-lo pronto ao próximo usuário. E todos os papéis higiênicos que vi eram da marca Kleenex, a mesma dos lencinhos de papel.

Nosso hotel, o Park Inn, é um dos prédios mais altos da cidade, na Alexander Platz. Segundo a Jamila, no lado vodca da Alemanha. No caso, na região que pertencia à Alemanha Oriental, antes da reunificação. Lado comunista, enquanto que o outro lado é chamado de Coca-Cola. Tivemos uma primeira impressão da cidade no city tour de ônibus. A guia nos disse que o urso é o símbolo da cidade, e, de fato, vimos muitos souvenires e enfeites com este formato.

Fomos conhecer o muro de Berlim, o famoso muro que isolou parte da cidade com seus 155 quilômetros de extensão. Eu esperava um muro muito alto, intransponível, mas o que vimos do que restou não é nada assustador, a não ser pelas histórias que a guia Bela nos contou e também pelo que já havíamos estudado. Resumidamente: com o fim da guerra em 1945, a Alemanha foi dividida em quatro zonas, ocupadas por Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e União Soviética. A capital, Berlim, também foi dividida entre os quatro. A partir de junho de 1948, a União Soviética bloqueou o acesso por terra ao setor ocidental de Berlim, impedindo que alimentos e outros suprimentos chegassem a esta parte. Para resolver a questão, o bloco capitalista criou uma ponte aérea até o aeroporto de Tempelhof, em Berlim, no setor americano. Um ano depois, as três zonas controladas por Estados Unidos, França e Grã-Bretanha foram transformadas em República Federal da Alemanha, tendo Bonn como capital. No mesmo ano, a parte controlada por soviéticos passou a ser República Democrática Alemã, cuja capital ficou sendo Berlim Oriental.
Com a Guerra Fria, os soviéticos decidiram isolar Berlim Ocidental para não influenciar o lado comunista. E a parte de Berlim que ficou livre virou uma ilha cercada por socialistas-comunistas por todos os lados. Em 13 de agosto de 1961, o dia amanheceu com cercas de arame farpado ao redor da parte capitalista. Para evitar que os orientais se mudassem para o lado ocidental, foi construído o muro que separou famílias e durou até 1989, quando foi derrubado. Um ano depois, as Alemanhas voltaram a ser uma só.
Então, o muro ou Berliner Mauer. De altura tinha/tem 3,6 metros. Mas havia muitos obstáculos para cruzá-lo. Aliás, eram dois muros, com um espaço entre eles chamado de “faixa da morte”. Arame farpado, cercas eletrificadas, mais de 10 mil soldados com ordem para matar, cães treinados ... A parte que visitamos é chamada de East Side Gallery, na margem do rio Spree. Algumas pichações são famosas; 118 artistas de 21 países diferentes pintaram a liberdade, a democracia, mas também ironizaram as ditaduras e a repressão a elas associadas, como o desenho do beijo entre o premiê soviéticoLeonid Brejnev; à direita, e Erich Honecker, o segundo e último premiê alemão oriental. Obra do artista russo radicado na Alemanha, Dmitri Wrubel, baseado numa fotografia do jornalista francês Régis Bossu.
Muitas pessoas se amontoavam para ver e tocar no que restou do muro, apenas 1,5 quilômetro. Difícil fazer fotos naquele caos de estudantes e turistas. Muito menos ouvir as explicações da guia local. Seguimos o passeio.

A próxima parada foi perto da estátua de Alexander von Humbolt, na frente da universidade Humbolt, a mais antiga de Berlim, na avenida Under den Linden, ou Sob as Tílias, nome original da via. As tílias foram cortadas e viraram fogueira na guerra, ficou o nome. Atravessamos a rua e vimos no chão da Bebelplatz o memorial em vidro no chão que mostra, lá embaixo, estantes vazias para recordar os 25 mil livros de inimigos do Reich que foram queimados em 1933 – os livros, não os inimigos. Lá está escrito: “Onde se queimam livros, acabam por queimar pessoas”. Frase de Henrich Heine em 1820, quase uma profecia realizada.




Começou a cair uma chuvinha leve, o céu fechou a cara, como se já estivesse anoitecendo. Não há como obter boas fotos assim. E infelizmente não há como reter todas as informações que a guia repassava, a menos que estivesse filmando. Fica, no entanto, a impressão de que de todo o horror que foi a Segunda Guerra tem suficientes lembretes por toda a cidade e também que houve um esforço para construir e reconstruir preservando a memória nacional.

Nossa próxima parada foi no checkpoint Charlie. Um grupo de atores posava para fotos de turistas pagantes, ansiosos por registrar o teatrinho divertido de um fato verídico. O checkpoint Charllie era o ponto de passagem de estrangeiros e membros das forças aliadas da Alemanha Ocidental para a Oriental. No chão, em alguns pontos há placas metálicas com a inscrição Berliner Mauer 1961-1989 para indicar que naquele trecho havia muro.

A guia chamou a atenção também para a data 9 de novembro que repetidamente significou um fato importante para a Alemanha, a ponto de ter um nome próprio: Schicksalstag (literalmente dia do destino em língua alemã). Por exemplo, nesta data, em 1918, o imperador Guilherme II foi destronado e Philipp Scheidemann proclamou a primeira república da Alemanha, a República de Weimar. Em 1923, deu-se o Putsch de Munique, uma tentativa de golpe de estado que foi a primeira aparição do Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores em público. Já em 1938, a Kristallnacht (noite dos cristais) marca o início do Holocausto. Foram mortos mais de 1300 judeus e queimadas ou destruídas por outras formas muitas sinagogas e outras propriedades dos judeus.
E nessa data, em 1989, caiu o muro de Berlim. Este acontecimento é visto como o início da reunificação da Alemanha. Parece coincidência, mas fica uma pitada de dúvida.
No passeio visualizamos a Porta de Brademburgo, a ilha dos Museus, a avenida Kudamm e outros pontos que a memória mistura. Cansados, seguimos para nossos quartos e depois do jantar só pensamos em dormir. Nosso quarto era no 18º andar, com uma boa visão da torre da tevê e das ruas salpicadas de obras. Cidade plana, como toda a região alemã que conhecemos. Excelente para andar de bicicleta, coisa que o povo faz muito.


9 de maio, quinta-feira
Nosso primeiro compromisso foi ir ao museu às 10 horas. Antes de sairmos, fiz algumas fotos dos bibelôs de cerâmica em formato de urso na lojinha do hotel.

O museu de Pérgamo está localizado na ilha dos Museus, a região histórica e cultural preservada que abriga cinco museus tombados pela Unesco. Ele é o museu mais visitado de Berlim e foi construído entre 1910 e 1930. Abriga estruturas como o Altar de Pérgamo (entrada de um templo da antiguidade grega), o Portão do Mercado de Mileto  (construção romana do século 2), a Porta de Ishtar (oitavo portão que dava acesso à cidade da Babilônia) e  a Fachada de Mshatta, que fez parte do palácio Qasr Mshatta na Jordânia, entre outros tesouros. Usamos os radinhos para ouvir as explicações da guia. Como sempre, a multidão impedia a circulação normal e as fotos. Mas não pude deixar de pensar em quanto os povos de origem perderam com o transporte das relíquias para a Alemanha. Ou será que foi sorte que tenha sido assim, pois de outra forma nem existiriam mais?


Depois da visita ao museu, seguimos para um embarcadouro no rio Spree, onde apreciamos o passeio de barco ouvindo um audioguia que indicava os pontos a serem vistos. Choveu um pouquinho e cada um se abrigou como pôde. Vale a pena investir neste recurso turístico. A arquitetura apresenta-se em várias escolas, inclusive a famosa Bauhaus. Prédios históricos, outros do cotidiano, alguns oficiais, outros que são cenário para a política atual, enfim, tivemos uma aula ao ar livre muito rica e interessante. A senhora Angela Merkel é sempre citada pelos guias como uma personagem da maior importância na atualidade. E parece que ela é muito admirada e querida também.



Depois do minicruzeiro fomos liberados. Cada um escolheu o que faria na tarde livre. Eu saí a caminhar com um casal companheiro de viagem, mas eles escolheram um restaurante para almoçar e eu preferi ir atrás da verdadeira salsicha berlinense. Encontrei um quiosque que vendia a currywurst com batatas fritas. A salsicha é grelhada na chapa e servida com molho de ketchup e curry, o tempero apimentado indiano. Foi servida em pratinho de papelão com garfo e faca de plástico. Delicioso!

 

Continuei a caminhada pelas ruas, bem segura de que não me perderia. Bastava olhar para a torre da tevê para saber a direção da Alexander platz e, consequentemente, o hotel. Segui a direção oposta e cheguei á loja da Nivea, a Nivea Haus. Comprei algumas coisinhas, inclusive um kit de viagem muito barato e prático. Depois voltei pelo mesmo caminho. Consegui ver a cruz formada pelo reflexo no sol na torre da tevê.
Parei um pouco na praça onde um grupo de dançarinos de street dance fazia exibições muito elaboradas. 
Quando estava voltando para o hotel, encontrei um companheiro da excursão que estava indo à loja da Nivea. Dei-lhe dinheiro para comprar mais dois kits. Ele comprou sim, mas do tamanho grande, de quase um quilo cada pacote! Ainda bem que minha colega de quarto tinha espaço na mala, pois foi ali que consegui ajeitar os ditos cujos. Eu não expliquei exatamente qual era o kit. Se ele perguntou à vendedora, ela mostrou o maior. Foi engraçado.
Tivemos o jantar adiantado para dar tempo de fazer o passeio noturno. Fomos conhecer o bairro judeu, onde a trágica Noite dos Cristais aconteceu, no período de perseguição étnica. Se não estivéssemos acompanhados pela guia, certamente teríamos nos perdido no labirinto de prédios baixos e pequenos jardins que formam a Rosenthaler.



  
Caminhamos na penumbra e passamos pelo museu Blindenwerkstatt Otto Weidt, que fora uma oficina de escovas para sapatos e vassouras onde os trabalhadores eram judeus e deficientes visuais e auditivos, na maioria. O próprio Otto Weidt era cego. Ele foi responsável por salvar da morte centenas de judeus.

A guia contou a história de Alice Licht, uma jovem trabalhadora da oficina levada para Auschwitz. O patrão, mesmo cego, seguiu sozinho, de trem, e deu um jeito de resgatá-la e trazê-la de volta para que ela emigrasse para os Estados Unidos. O museu estava fechado naquele horário.

No chão, vimos plaquinhas em metal com algo escrito. Ficamos sabendo que são as “pedras do tropeço” e existem mais de 60 mil no chão da Europa. As stolpersteine, feitas por iniciativa de Gunter Demnig, são colocadas na frente da residência ou trabalho das vítimas do nazismo.

Continuamos o passeio noturno até o prédio do parlamento, depois caminhamos ao Portão de Brademburgo, ao lado da embaixada dos Estados Unidos, e seguimos com uma travessia muito original por uma praça às escuras onde não se veem árvores nem bancos, apenas blocos de concreto em tamanhos variados, como túmulos muito próximos. Quem ousou um pouco mais atravessou a passagem iluminando o caminho com a lanterna do celular. O Memorial aos Judeus Mortos da Europa ou como é mais comumente chamado Memorial do Holocausto (Holocaust-Mahnmal), do  arquiteto americano Peter Eisenman. É, como o nome já indica, um memorial dedicado aos seis milhões de judeus mortos durante o regime nazista. Foi inaugurado em 2005, durante a celebração dos 60 anos do fim da Segunda Guerra.

São 2.711 blocos espalhados em 19 mil m² de área, com 2,38m de comprimento por 0,95m de largura e a altura varia de 0,2m até 4,8m. Próximos dali há um memorial dedicado aos homossexuais e outro às minorias sinti e roma, todos vítimas da perseguição nazista.
Finalizamos indo ao Sony Center, um conjunto arquitetônico impressionante, na Postdamer Platz. O complexo tem um dos melhores cinemas de Berlim, restaurantes, livrarias e funciona também como centro empresarial, onde várias empresas têm seus escritórios. Quando o muro de Berlim foi construído, a Postdamer Platz foi dividida ao meio. Depois da reunificação, foi construído o Sony Center no ano 2000. O conjunto possui uma iluminação do telhado especial, realizada pelo artista parisiense Yann Kersalé para refletir a luz do sol ou do luar de maneira espetacular. À noite, as luzes mudam de cor a cada 20 segundos. Além de uma loja da Sony, tem uma da Lego, a Legoland Discovery Centre.
Voltamos para o hotel para descansar. A programação do dia seguinte começaria às oito horas.

10 de maio, sexta-feira
Seguindo a programação, partimos às 8h em direção a Potsdam, capital do estado de Brademburgo e que faz fronteira com Berlim pelo rio Havel. De acordo com a Wikipédia (já que a memória apagou as explicações da guia), “Potsdam é mundialmente conhecida por seu legado histórico como residência dos reis da Prússia, bem como pelo grande número de belos parques e palácios, entre outros o Palácio de Sanssouci. O conjunto, englobando 500 ha de parques e 150 edifícios erguidos entre 1730 e 1916, foi nomeado Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO em 1990”.


Nossa primeira parada foi para visitar o palácio Cecilienhof, cenário preservado da histórica conferência de Potsdam, que ocorreu entre 17 de julho e 2 de agosto de 1945, na qual os líderes aliados vitoriosos (Roosevelt, substituído por Harry S. Truman, Winston Churchill e seu sucessor, Clement Attlee, e Joseph Stalin) se reuniram para decidir o futuro da Alemanha - e da Europa em geral - do pós-guerra.


O local, no Jardim Novo, mais parece uma casa de campo inglesa e é hoje um hotel. Por ser um local pequeno, a visitação deu-se em fila indiana, com audioguia. O interior do palácio expõe reportagens, fotos, explicações e mobiliário preservado. Com um pouquinho de imaginação é possível “ver” os poderosos, cercados de auxiliares, decidindo como colocar ordem no caos pós-guerra. E talvez como aproveitar o momento para levar alguma vantagem.
O Schloss Cecilienhof foi o último palácio a ser construído pela dinastia dos Hohenzollern, entre 1914 e 1917. O Imperador Guilherme II, último kaiser da Alemanha, ordenou que ele fosse construído para seu filho, o príncipe Guilherme da Prússia, e sua esposa, a princesa Cecília Augusta Maria de Mecklemburgo-Schwerin (20 de setembro de 1886 - 6 de maio de 1954). Vale a pena ler a biografia da princesa. Foi uma mulher muito avançada para a época, tendo permanecido no palácio até o último minuto possível, apesar de o resto da família imperial estar no exílio havia anos.
Não visitamos a outra atração do Neuer Garten, o Marmorpalais, um palácio com fachada de mármore construído no século 18. Passeamos pelos jardins, apreciando a primavera alemã. Seguimos de ônibus para a próxima parada, da qual só vimos o exterior. Tem o bairro holandês, com 150 casas no estilo das que se veem em Amsterdam, feitas de tijolinhos vermelhos; o bairro russo, também com construções típicas, e o bairro francês, com suas belas igrejas. É que a cidade sempre recebeu muitos imigrantes de outros países, que lá se estabeleceram para servir à Corte Imperial. Vimos o moinho, as charretes para passeios, a igrejinha... E um músico vestido à moda imperial tocando sua flauta, completamente integrado ao ambiente.




O palácio de Sanssouci (do francês: sem preocupações) é muito bonito, com numerosos templos, jardim muito bem cuidado e o parque. A guia contou que, apesar de tudo ter sido projetado por um arquiteto, o próprio Frederico II da Prússia desenhou os espaços que idealizara para descansar e receber os amigos mais próximos. O jardim lembra muito Versalhes, de onde veio a inspiração arquitetônica. Num canto, aos pés de uma estátua, algumas placas no chão isolado por cerca indicavam que ali estavam sepultados os cães da família. E também o próprio Frederico II e as batatas.

A guia contou que havia uma relação entre Frederico o Grande e as batatas, que o povo coloca sobre seu túmulo como homenagem. O túmulo é praticamente igual ao dos cães, sem nenhuma ostentação. Dizem que Frederico queria que os agricultores locais plantassem batatas – inexistente até então -, mas houve resistência. Ele mandou que seus empregados plantassem nas laterais do palácio. Na época da colheita, chamou os agricultores que se deram conta do erro e ficaram muito agradecidos ao imperador, porque assim escaparam da fome.
O dia estava bem luminoso, a vegetação brilhava e convidava a passear pelos canteiros bem cuidados. Entre os níveis do parque, as vinhas brotavam e já ostentavam os cachos minúsculos. 

Continuamos até o centrinho histórico, onde descemos e aproveitamos para comer alguma coisa. As ruas calçadas de pedras lisas e retangulares ofereciam poucos locais para refeição, mas a gente sempre dá um jeito. Peguei alguns folhetos para ver depois o que era e fiquei surpresa. Havia uma exposição do Salvador Dali e outra do Picasso na pequena cidade. Não daria tempo, mas serviu para ter ideia do envolvimento cultural na região. No horário marcado, voltamos para Berlim.
Como havia mais tempo livre, fui com mais seis companheiras apreciar o visual da torre da televisão, a Berliner Fernsehturm, localizada bem em frente ao nosso hotel, na Alexanderplatz. A altura total é de 368 m. Diz a Wikipédia: “Existe uma plataforma para visitantes e um restaurante giratório no centro da esfera. A plataforma de visitantes está a uma altura de 203 m acima do solo e a visibilidade pode chegar a 42 km em dias claros. O restaurante, que gira uma vez a cada 20 minutos, está a poucos metros acima da plataforma. Dentro do eixo central há dois elevadores para trazer visitantes para a esfera da torre, levando 40 segundos para chegar. Não é acessível por escadas. Devido ao seu pequeno tamanho, há longas esperas na base da torre.” Verdade, há uma espera bem chata, no mezanino. Mas como os ingressos (16,50 euros) são numerados, basta acompanhar num monitor. Um dos guardas se animou todo com as brasileiras. O restaurante fica no andar superior, que não visitamos.
Não se percebe o movimento quando se está lá em cima. O visual é muito parecido de qualquer janela que se olhe. Tem que prestar bastante atenção para reconhecer os prédios já conhecidos ou o rio. O que se vê é uma cidade grande, de construções baixas e ruas retas.
O edifício do shopping center foi o ponto final do dia para a maioria dos viajantes. Localizado praticamente em frente ao hotel, era muito tentador. Na Alexanderplatz havia outras lojas boas para comprinhas, e foi o que fizemos, até a hora do jantar.

11 de maio, sábado
Às 7h30 percorremos cerca de 200 quilômetros o rumo a Dresden, capital da Saxônia quase totalmente destruída pelos aliados no dia 13 de fevereiro de 1945. Chegamos lá com chuva. Paramos próximo à margem do rio Elba, para nossa visita panorâmica molhada. Nenhuma visita estava programada, portanto, pernas pra que te quero. Lamentei muito não ter tempo para visitar pelo menos um museu. Caminhamos pelas ruas, ouvindo as informações da guia pelo radinho; um músico, ao nos ouvir falar em português, tocou nosso Hino Nacional. As gorjetas foram boas.








   Vimos – por fora – o Zwinger, ou Palácio das Porcelanas, que fazem ou fizeram a fama da cidade; a ópera Semperoper, a igreja Frauenkirche, Igreja de Nossa Senhora, onde estava acontecendo um casamento; a igreja católica Hofkirche, fechada; e tantos outros pontos de destaque que sequer tomamos conhecimento dada a rapidez do passeio. Uma pena, porque a Florença do Elba parece ser muito linda. Sem ilusões, porque sabemos que foi tudo ou quase tudo destruído pelos bombardeios e reconstruído depois. Bom, talvez esteja aí o motivo para admirar a recuperação da cidade.

Impressionante mesmo é a obra bastante conhecida e muito peculiar de Dresden, a Fürstenzug, que significa Procissão dos Príncipes, localizada na área exterior do Stallhof, na Schlossplatz – praça do Palácio. Trata-se de um mural de mais de 100 metros de comprimento em azulejos que mostra a história da família real da Saxônia, os Wettins. Mais de mil anos de história estão ali representados. A guia, em seu espanhol aportuguesado, destacou o rei Augusto, o Grande.

Ao meio-dia fizemos uma pausa para que cada um fizesse o que queria. Fui almoçar com minha colega de quarto no Edelweiss, restaurante típico dos Alpes. Comi batatas rösti com bacon triturado, salada verde e dois ovos fritos. O local era bem acolhedor e aconchegante, em frente à Frauenkirche. Perto também vimos uma feira de comidas, bebidas, artesanato e diversas quinquilharias. Muitas flores e sementes. Os turistas, às centenas, se misturavam com a população local, numa bagunça de guarda-chuvas e capas e gente molhada.

Às 14h30 nos reunimos para seguir a viagem. Mais 300 quilômetros até Nuremberg, onde chegamos à noitinha. Depois do jantar, algumas pessoas ainda estavam com energia para dar uma voltinha, inclusive eu. Atravessamos um túnel sob a avenida em frente ao hotel e nos vimos num labirinto meio escuro, tendo a muralha da cidade numa das laterais. Com um pouco de receio, seguimos em frente até um centrinho perto da igreja. Andamos mais um pouco e resolvemos voltar. Estava todo o comércio fechado e o frio mandava ir para a cama.


12 de maio, domingo
Começamos bem cedo a conhecer a parte antiga da cidade, quase o mesmo lugar por onde andamos à noite, mas de dia tem outro visual. Antes de descermos do ônibus, apreciamos a calma da cidade no domingo do Dia das Mães, suas ruas, sua paisagem urbana.
A guia Hanna contou que Nuremberg, a segunda maior da Bavária, atrás de Munique, foi a cidade escolhida por Hitler para ser a sede do parlamento nazista, onde realizou os primeiros discursos inflamados que o caracterizaram. Mas foi depois da 2ª Guerra Mundial que Nuremberg chamou a atenção do mundo, pois foi lá, entre 1945 e 1949, que foram realizados os julgamentos dos líderes nazistas. Não descemos para ver, mas soubemos que os tribunais têm exposição de documentos desses julgamentos.
Passamos de ônibus no centro de documentação nazista, Reichsparteitagsgelände, que lembra muito o Coliseu de Roma, na Itália. Ali aconteceram grandes desfiles e festas do partido. Há um museu atualmente no local. Como Dresden, Nuremberg foi duramente atingido pelas bombas. Cerca de 90% da cidade foi destruído, como retaliação ao acolhimento a Hitler e companhia.




Descemos para apreciar a parte histórica antiga, quase toda reconstruída. Nota-se em vários prédios que foram usadas partes originais, criando um jogo de claro-escuro significativo. Andamos pelas ruas principais, ouvindo as explicações da guia pelo radiozinho. Vimos de dia o que à noite estava meio sinistro. A muralha é muito linda e custa-se a acreditar que aquilo tudo veio abaixo na guerra. Não visitamos nada por dentro, mas o conjunto medieval impressiona. A torre, as casinhas estilo enxaimel, as lojinhas, tudo harmonioso. A guia contou que a lebre que víamos em monumentos e livros expostos e as mãos em oração se referem à obra do famoso Albrecht Dürer, um famoso pintor renascentista que viveu no século 16. A casa de Dürer foi também seu local de trabalho, e ele viveu neste lugar entre 1509 e 1528.



A St. Lorenz Kirche é muito linda. Essa igreja do século 13 é a principal atração da praça. Com duas torres altas, ela se destaca entre as baixas construções da cidade. Seu interior também é bonito, com vários altares góticos e belos vitrais. A construção da basílica de três naves começou em torno de 1250, mas o seu coro gótico foi concluído somente em 1477. O patrono da igreja é São Lourenço, mas desde a Reforma é uma das duas principais igrejas protestantes da cidade de Nuremberg. A construção foi gravemente danificada durante a Segunda Guerra Mundial, sendo que ela foi reconstruída tal e qual como era antes da guerra.

Uma das fotos mais interessantes que tirei foi do Heilig-Geist Spital, o antigo Hospital Espírito Santo, construído em 1332. Este lugar foi um dos maiores hospitais construídos na Idade Média e a maior instalação urbana para o atendimento dos doentes e idosos da cidade. Hoje o lugar abriga algumas das joias da realeza, que foram mantidas em Nuremberg de 1424 a 1796.
Andamos até a Rauenkirche. A belíssima catedral nem é muito grande, mas impressiona.  Construída entre 1352-58 em estilo gótico, ela foi encomendada pelo imperador Karl 4º. Outro atrativo é o relógio da fachada. Ele faz um desfile de bonecos mecanizados todos os dias, ao meio-dia, que prestam homenagens ao imperador. Em frente fica um espaço vazio, muito grande, onde se realiza a feira principal da cidade. No Natal, a feira é especial e conhecida internacionalmente.
Ao lado da catedral está uma fonte incrível! Dizem que quem der três voltas nela com certeza retornará à cidade. Esta é uma réplica da fonte gótica de 1385. A fonte original pode ser visitada no museu Nationalmuseum Germanisches. A Schöner Brunnen – Fonte Bonita - simboliza a visão teocêntrica do mundo na Idade Média. Em quatro séries de figuras, de cima para baixo vê-se a filosofia e as sete artes liberais, os quatro evangelistas como representantes do clero, os sete eleitores que tinham direito a voto na eleição do imperador, junto com os nove heróis da história mundial. E finalmente, Moisés com os sete profetas.
Marcamos de nos encontrar ao lado da fonte e cada um escolheu o que fazer. Eu e minha amiga quisemos almoçar. Escolhemos um restaurante que nos serviu a tradicional salsicha de Nuremberg. Pequena, do tamanho de um dedo, esbranquiçada e levemente temperada, a “original Nürnberg rostbratwürste” tem carne de porco, de gado e, às vezes, de vitela. O repolho (chucrute) acompanhava, junto com a cerveja. Uma das lendas para o tamanho (de seis a nove centímetros) diz que são finas porque precisavam ser passadas pelo buraco das fechaduras das casas no fim da era medieval, durante o surto da peste negra. Outra diz que o bar fechava, mas as salsichas continuavam a ser passadas pelos fregueses por buracos nas portas. Ou ainda que eram o alimento dos prisioneiros que conseguia passar pelas fendas da prisão.
Outro quitute tradicional da cidade é o lebküchen, que é um pão de mel feito com gengibre e especiarias, mas não provamos.
Seguimos para o ônibus por mais algum tempo de estrada até Rothenburg ob der Tauber, a fortaleza vermelha sobre o rio Rauber. Cidadezinha encantadora, saída de um livro de histórias. Casas típicas em enxaimel, floreiras explodindo em cores, lojinhas (algumas fechadas, pois é domingo), restaurantes. Por falar em restaurantes, observei que os cartazes às portas estavam escritos em alemão, inglês e mandarim. Olha só! Faz sentido, porque vimos muitos turistas de olhinhos puxados.
Deixamos o ônibus ao lado da muralha e seguimos a Jamila por um beco de acesso ao centrinho. Andamos livremente no tempo permitido, cada um no seu ritmo. Comi um dos pratos mais típicos, as Schneeballen, ou “bolas de neve”, um doce que casou bem com uma xícara de chá preto.



Visitei a Käthe Wohlfahrt, maior loja de produtos de Natal da Europa que fica aberta durante o ano inteiro. Não pode fotografar lá dentro. Não fui, mas soube que tem por lá o Museu Alemão do Natal. No fim do ano, acontece o Reitlersmarkt, um mercado de Natal que possui 500 anos de tradição. Mas a loja estava muito cheia e a visitação e/ou compra fica complicada.

""Passeando ao longo da Schmiedgasse, uma antiga e bela rua que vai do Marktplatz para o sul, você chegará ao nº3, a Casa do Mestre Construtor (Baumeisterhaus). Este belo e antigo edifício, com a sua espetacular fachada de 1596, é amplamente considerado como uma das melhores casas renascentistas da Baviera e foi onde o Mestre Construtor de Rothenburg, Leonard Weidmann, viveu e trabalhou. Um testamento de suas habilidades, a casa é famosa por suas esculturas de motivos de dragão, juntamente com estátuas representando as sete virtudes cardeais e os sete pecados capitais".

Há vários museus, inclusive um dedicado a crimes e torturas. A cada hora cheia, das 10h às 22h, o relógio astronômico vira atração. As portinhas no alto do prédio e saem figurinhas divertidas. Olhando para ele, vemos: o grande relógio da cidade de 1683, que exibe a data, um mostrador do sol de 1768 e o brasão da cidade. Há uma lenda contada nestas aparições e também recriada todos os anos desde 1881, que é Der Meistertrunk - a Farra. Vou copiar lá do blog Viaja Daqui:

“A mais famosa história de Rothenburg refere-se ao prefeito Nusch, que, com a cidade sitiada, aceitou o desafio imposto pelo general Tilly de tomar em um só gole, um cântaro contendo mais de três litros de vinho. O episódio ocorreu em 1631, durante a Guerra dos Trinta Anos, quando o católico general Tilly desafiou: “Se um de vocês tomar em um só gole este cântaro de 3,25 litros de vinho, prometo não saquear e nem destruir esta cidade”. O prefeito Nusch de uma só tomada bebeu todo o vinho salvando a cidade e seus habitantes.”



Falta falar da esquina famosa, o cartão postal chamado o Plönlein. É um edifício estreito, com uma fonte na frente, com a torre Kobolzeller e a Torre Siebers ao fundo, como moldura.

Depois desse passeio que deixou vontade de prolongar, continuamos de ônibus em direção a München – Munique, capital da Baviera. Chegamos ao anoitecer, então não havia nada a fazer a não ser jantar e descansar.

13 de maio, segunda-feira
Fizemos uma visita panorâmica meio rápida, mas já deu para perceber que Munique é uma cidade bonita, com muito verde e também muitas histórias. 





Fomos direto visitar a fábrica da BMW, um sonho de consumo e tecnologia de ponta. Ficamos mais de uma hora olhando os carros e motos em exposição. Além de bonitos, estão muito adiantados em relação a combustível e controles automatizados. Não vimos o museu da BMW nem o Allianz Arena, do time Bayer de Munique, o estádio mais moderno da Europa. 
A Vila Olímpica, também, foi muito en passant . O parque, que é bem bonito, está instalado sobre seis milhões de escombros aterrados da Grande Guerra. Em 1971 aconteceram os 20º Jogos Olímpicos de Verão em Munique, que entraram para a história pelo assassinato de vários esportistas judeus por terroristas palestinos. Foi bom não ter visto. Chega de tragédias.

De ônibus fica muito difícil acompanhar as indicações da guia. Os prédios acabam se confundindo na memória. Mas vi uma escultura muito interessante. Para mim, era a figura de uma pessoa vomitando sangue. Não sei realmente o que significa. Tem outra, gigantesca, The Walking Man, uma escultura de 1995 de Jonathan Borofsky, com 17 metros de altura e 16 toneladas de peso. Está localizado na Leopoldstraße. Também não entendi o que significa, mas é impressionante. 
Tentei muito fotografar o monumento do Anjo da Paz (Friedensengel), localizado na  Prinzregentenstrasse, perto do aterro do Isar, mas desisti. Procurei uma imagem na internet, mas não sei quem é o autor. O Anjo comemora os 25 anos de paz que se seguiram à guerra de 1870-71 contra a França.

Continuamos com a guia local, Lélia, em portunhol compreensível. Ela nos informou que o Englischer Garten é maior que o Central Park de Nova York. O parque é muito bonito, e ainda tem uns atrativos originais. Por exemplo, os surfistas no rio Isar, onde uma onda criada artificialmente garante a diversão. Outro atrativo acontece no verão, quando os alemães curtem tirar toda a roupa para pegar sol. Toda a roupa!

Sem descer do ônibus, apreciamos o Nymphenburg, um palácio em estilo barroco, do século 17. O local serviu como residência de verão da monarquia da Bavária e atualmente é aberto à visitação. É enorme. Não consegui fotografá-lo todo de uma só vez.

A cidade está em obras. Deixamos o ônibus perto da rua das lojas de grife e seguimos a pé para ver a Marienplatz, com sua prefeitura e igreja deslumbrantes. Na Idade Média, a praça se chamava Schrannen e era local de torneios e festas. Mais tarde seu nome mudou para Marienplatz como um pedido de ajuda à Virgem Maria para proteger a cidade de uma epidemia de cólera.


A Neues Rathaus – Nova Prefeitura - é o prédio que mais chama atenção na Marienplatz, e em um primeiro momento muitos o confundem com uma igreja. A turistada se concentra na frente do prédio para assistir ao carrossel, que começa a se movimentar com o toque dos sinos, diariamente às 12h e às 17h; os bonecos tomam vida e dançam no topo da torre, representando histórias do século 16 da Baviera. É um espetáculo que dura entre 12 e 15 minutos.

Bem pertinho dali, tem o Viktualienmarkt, uma praça onde rola o mercado mais famoso de Munique, ao ar livre e aberto todos os dias. Ali tem um pequeno biergarten e diversas opções de comida, sendo um ótimo lugar pra fazer uma pausa para o almoço, e estava lotado. Foi lá que fiz um lanchinho à base de salsicha, claro. Eu até procurei a famosa torta Schwarzwald Kuche, ou Floresta Negra, especialidade da região, mas não achei.  

Juntamos os viajantes e seguimos de ônibus por 130 quilômetros para visitar o castelo de Neuschwanstein, construído pelo rei Luís 2º da Baviera, o Rei Louco. Este castelo é tão bonito que serviu de inspiração, dizem, a Walt Disney para criar o castelo da Cinderela, símbolo da Disney. Neu significa novo, schwan quer dizer cisne e stein é pedra. Ele foi construído perto do castelo de Hohenschwangau, ali perto, que, por sua vez, fora edificado sobre os escombros do antigo Schwanstein. Ambos atualmente ficam perto do lago Schwansee, na região de Schwangau.


  Desta vez a estrada, embora perfeita, era mais estreita. Ao fundo se via a massa coberta de neve dos Alpes. Quando descemos, ao pé do morro do castelo, seguimos de ônibus até o ponto de ingresso. Pudemos ver de perto o gelo formado nas encostas ao lado da estradinha. Na volta, que percorremos a pé, vimos ainda mais próximo. Havia um grupo de estudantes brasileiros intercambista se divertindo. Esticamos a caminhada um pouco para sentir vertigens na Marienbrücke, conhecida como ponte Maria, uma obra de engenharia incrível.

Chegamos lá em cima, nos contrafortes do impressionante monumento à beleza, à graça e até mesmo à modernidade em seu tempo. O rei, que de louco não tinha nada, idealizou em 1869 uma obra que foi construída com o que havia de novidade na época, apesar do aspecto medieval. Tinha água quente e fria, banheiros com descarga automática, calefação, uma espécie de telefone, um grill giratório ao calor na cozinha, eletricidade, entre inúmeras inovações.

Coitado, quando o castelo estava prestes a ficar pronto, em 1886, a comissão do estado da Baviera o declarou incapaz. Poucos dias depois, o corpo dele foi encontrado afogado, bem como o do médico que atestou a insanidade. Ele era uma pessoa sensível, amante das artes. Foi um incompreendido.

Pena que a gente não podia fotografar. Todos os salões são magníficos e estão em processo de manutenção/restauração. Mas tem um local, lá dentro, que me chocou. O rei mandou construir uma pequena gruta, originalmente com uma cascata artificial, com estalagmites e estalactites inclusive. A ideia dele era representar a gruta do Monte de Vênus, da ópera Tannhäuser, de Richard Wagner, a quem o rei admirava demais.
Ao descer, provei o vinho quente maravilhoso, o glühwein. E trouxe a caneca comigo, óbvio.

Voltamos para Munique porque ainda nos faltava cumprir mais um item da agenda: o jantar na Hofbräuhaus. Mais de 400 anos de tradição em cervejaria, já pensou? Fundada em 1589 pelo Duque William 5º da Baviera para consumo apenas da realeza, a HB não é a mais antiga do mundo. A cervejaria mais antiga em funcionamento é a Weihenstephan, localizada na Baviera também, na cidade de Freising (30 km de Munique), fundada em 1040. Somente em 1828, por ordem de Luís 1º, cujo casamento deu início à Oktoberfest, as portas foram abertas ao povo. Mas durante a guerra tudo foi abaixo, tendo sido reconstruída em 1958.
Uma bandinha típica toca entre um gole e outro de cerveja. De vez em quando um casal dança à base de rodopios que me deixaram tonta. Não havia coreografia, só giros. O jantar foi servido pouco tempo depois: joelho de porco. Para minha surpresa, estava muito saboroso. A casa estava lotada.






Voltamos para o ônibus e para o hotel. O dia foi longo e bem aproveitado.

14 de maio, terça-feira
Último dia na Alemanha. Aproveitamos a manhã para passear na Marienplatz novamente. Não havia muito tempo, porque marcamos o horário de saída para o aeroporto às 10h30. Mas o dia estava lindo, ensolarado, e valeu a pequena caminhada  pelo centro.
Pegamos um voo até Paris, de lá para São Paulo e depois para Florianópolis. A Alemanha imperial e imponente, como o título da excursão, tinha sido apresentada a nós em rápidas imagens. Ficou muita coisa por ver, como acontece nas boas viagens. Nem todas as impressões foram alegres, o que é aceitável, haja vista o passado recente e tão dramático. A geração que viveu a Segunda Guerra Mundial ainda está por aí, atestando o que os livros de História registraram. Se tudo o que foi vivido e sofrido não for esquecido totalmente, talvez haja esperança de que não se repita nunca mais.
Agradeço ao Sesc, especialmente na pessoa de nossa líder Andréia. Não foi a primeira vez que viajei com ela, mas desta vez ela teve mais trabalho. Felizmente, o grupo foi bem harmonioso e participativo. Só isto já garante o sucesso da viagem. Até a próxima!

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