Das coisas que nunca pensei em fazer e acabei fazendo, viajar para a
Alemanha foi uma delas. Viagem é isto: nem bem acaba uma e já outra começa a
ser planejada. Tem sido assim com o Sesc; vai-se pagando mensalmente até que na
data da partida não há mais o que gastar, a não ser com algumas refeições,
passeios opcionais e compras – ninguém resiste.
O nome da excursão era “Alemanha imperial e imponente”. Como sempre, não
pesquisei nada a respeito do roteiro. Fui levada, como das outras vezes. Tudo
era novidade. A única coisa que eu sabia era que a língua alemã é muito
complicada. Felizmente, no grupo algumas pessoas tinham noções suficientes para
garantir a comunicação básica e também teríamos a assistência de guias tradutores
durante toda a viagem.
O voo saiu de Florianópolis na manhã do dia 5 de maio, domingo. No aeroporto de Guarulhos/SP embarcamos num
avião da KLM rumo a Amsterdã, onde chegamos no dia seguinte e já decolamos para
Hamburgo. Mal deu para ver os canais holandeses da janelinha do avião.
Hamburgo estava nublada. De vez em quando chovia. Entramos no ônibus que
nos levaria durante todo o tempo na Alemanha. Nossa guia Jamila é uma cidadã do
mundo, muito profissional e simpática, nascida na Argentina e atualmente
residente numa ilha perto da África. Enquanto nos deslocávamos para o primeiro
city tour, ela já passava as primeiras informações sobre o país. Por exemplo,
são 16 estados independentes que compõem a República Federal da Alemanha
(Deutschland), cuja população é de 83 milhões de habitantes ou mais (dados de
2015).
Durante toda a viagem várias expressões foram repetidas pelas diversas
guias que nos apresentaram as cidades. Liga Hanseática, Segunda Guerra Mundial,
reforma protestante, República Democrática Alemã (ou Alemanha Oriental), muro
de Berlim, holocausto... Enfim, tivemos muitas lições de história e geopolítica
neste curto período.
Hamburgo fica ao norte do país, é a segunda cidade em população – cerca
de dois milhões – e também segundo porto mais importante da Europa, atrás de
Roterdam, relatou a guia. A fábrica da Airbus está localizada na região. E sim,
Hamburgo está mais de 100 km distante do mar, mas a navegação pelo rio Elba
permite acesso às grandes embarcações.
A guia, vendo o grande número de viajantes do sexo feminino, contou que a
cidade também detém a maior quantidade de homens solteiros e milionários do
país. A informação agradou. Móin móin, expressão usada popularmente quando o
assunto agrada, informou a guia.
Não percebemos, mas Hamburgo tem mais de 2500 pontes em seus inúmeros
canais. Mais que Veneza e Amsterdã juntas. Vimos a torre e a catedral de são
Miguel e descemos para observar a Rathaus platz, a praça da Câmara Municipal e prefeitura da cidade livre e
hanseática de Hamburgo. Fiquei muito curiosa para saber que árvores são aquelas
na praça. Devem ter perdido as folhas no inverno, mas agora estão brotando de
novo nos galhos cheios de bolotas. Estranho.
Disse a guia que mais de 70% da Alemanha foram destruídos na segunda guerra,
mas historicamente, com a força da Liga Hanseática (associação de cidades
comercialmente fortes), mais uma vez a cidade foi reconstruída.
Apesar da chuva, deu para perceber que é uma cidade muito verde. Pelo
menos 14% do território são ocupados por vegetação, informou nossa guia. Não há
prédios muito altos. Passamos rapidamente pelo bairro Vermelho, cheio de bares
e lojas, onde há uma rua fechada só para homens. A guia apontou que o país é o
segundo maior consumidor de cerveja do mundo. Perde para a República Tcheca.
Ela falou sobre a primeira sorveteria da Alemanha, que existe desde 1799.
O site da KLM explica bem a relação dos alemães com a igreja de São
Miguel: “A cidade de Hamburgo exibe muitas grandes igrejas, mas a Igreja de St.
Michael se destaca de todas as demais. “Michel”, como os habitantes de Hamburgo
afetivamente se referem à igreja, pode ser vista de quase qualquer ponto da
cidade. Esse símbolo de Hamburgo tem 132 metros de altura – aqueles que fizerem
o esforço de subir até o alto do campanário serão recompensados com uma vista
espetacular de Hamburgo e do porto”.
“Navegando pelo Lago Alster ou passeando pelas ruas do centro de
Hamburgo, é impossível deixar de notar o telhado verde-menta da Igreja de St.
Michael. Também é difícil ignorar seu som! Todos os dias, às 10h e às 21h, o
famoso trompetista de “Michel” toca um solo de trompete do alto do campanário.
Uma visita à igreja é imperdível e há muito a explorar. Siga a escada em
caracol para admirar o maior campanário da Alemanha, ouça a impressionante
música de órgão e descubra as criptas misteriosas.” E também: “Mas este lugar
também foi marcado pelo infortúnio: “Michel” é a terceira igreja a ser construída
no local. A igreja original, do século 17, foi destruída por uma forte
tempestade de raios, e a segunda igreja pegou fogo durante os trabalhos de
restauração em 1906. Quando você entrar na igreja, não deixe de olhar para
cima: uma imagem de cobre retrata o Arcanjo Michael que protege o portal. A
igreja barroca tem cinco órgãos em vários pontos. Aqueles que visitarem a
igreja ao meio-dia se depararão com uma apresentação musical de 15 minutos no
órgão principal.”

Do ônibus fomos apresentados à Beatles-platz, no bairro de St. Pauli, em
forma circular e preta, simbolizando um disco de vinil. Aliás, foi em Hamburgo
que o famoso quarteto inglês deu início à carreira. Nosso passeio foi muito
rápido. Não houve tempo sequer para fotografar, apenas uma cena ou outra.
Fizemos o check-in no Amedia Hotel e fomos jantar. O cardápio tinha
salada, goulash e macarrão. Fazia 10 graus, mas não dispensamos a cerveja
legítima alemã. O pôr-do-sol foi às 20h58. É primavera no hemisfério Norte e
estava frio. Uma das guias, talvez a Jamila, nos disse que não há turismo na
Alemanha no inverno. Eles têm que aproveitar bem a temperatura amena para
garantir esta atividade que é uma das mais importantes para a economia alemã, a
segunda, depois da agricultura.
Não falei ainda dos companheiros de viagem. Não gosto de citar nomes
porque sei que muitos não gostam de serem expostos. Mas acho que minha
companheira de quarto, a Ivanete, não vai se opor. Eu não poderia ter melhor
companhia. Sabe aquele tipo de pessoa que não tem que provar nada para ninguém?
Que vive sua simplicidade com a elegância de uma rainha? Que sabe manter o
silêncio se não houver nada a dizer e este silêncio é tranquilo, sem pressão?
Pois é ela, com seus mais de 70 anos bem vividos e ainda saúde e interesse
suficientes para desfrutar a viagem. Foi um privilégio para mim.
7 de maio, terça-feira
O sol nos presenteou com seu brilho logo ao amanhecer. Saímos às 7h30,
após o café da manhã. A temperatura estava um pouco baixa, mas não tinha vento
quando saímos para Lübeck. As estradas que percorremos, todas, sem exceção, são
perfeitas. E a velocidade, salvo em locais específicos, é liberada conforme a
capacidade do automóvel e do motorista.
Nossa guia Carmen embarcou na praça da prefeitura. Seguimos por cerca de
70 km ouvindo as explicações da guia. Uma das coisas que ela falou bate com o
que atualmente considero razoável: cerca de 80% da população vive em casas
alugadas. Deixamos o ônibus num local onde havia banheiro e dali seguimos em
direção ao centro histórico. Ela também contou sobre a Liga Hanseática e sua
importância no século 13, quando era formada por várias cidades. O fim da liga deu-se
com a concorrência da Inglaterra e Países Baixos. Ainda hoje há orgulho em
pertencer a uma cidade hanseática, basta ver a placa dos veículos com a marca
HH, indicando que a cidade de origem fazia parte da liga.
A paisagem não mudava muito. Plantações quase uniformes de colza, a
planta que vira canola e biodiesel. Bonito de ver, campos amarelos a perder de
vista. Mas a guia falou que a agricultura contempla o centeio, a batata, o
girassol e a beterraba (de onde se extrai o açúcar). Devido à primavera, as
árvores estão exibindo um verde claro luminoso que dói até de ver. Não há
morros, nem casas, num contínuo sonolento. Mas pudemos perceber que as placas
solares são muitas, muitas mesmo. Isto é animador.
“Lübeck foi fundada em 1143, tendo sido a primeira cidade ocidental na
costa báltica. Ela é conhecida como a Rainha da Liga Hanseática, por ter sido o
centro desta aliança mercantil que monopolizou o comércio sobre o norte da
Europa e o mar Báltico entre os séculos 12 e 17. O centro medieval de Lübeck
foi declarado Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco em 1987, e esta
foi a primeira vez que uma cidade antiga inteira no norte da Europa recebeu
este título.
O que não faltam são construções com rico valor histórico de diferentes
épocas: Gótico, Renascentista, Barroco e Clássico. São igrejas, monastérios,
becos, pátios, fortificações, casas burguesas, etc”. Estes parágrafos foram copiados do site www.7cantosdomundo.com.br.
Deixamos o ônibus num estacionamento perto da Porta de Holsten, ou
Holstentor, construído entre 1464 e 1478 no estilo gótico tardio, uma
fortificação que marcava o limite da cidade medieval. Acima do arco do portão
há a inscrição em latim CONCORDIA DOMI FORIS PAX (harmonia em casa, paz no
exterior). A impressão que se tem da edificação é que está afundando,
semelhante à torre de Pisa. Seguimos a pé, cruzando uma pontezinha encantadora
sobre o rio Trave, apreciando a paisagem bucólica e a imagem dos armazéns de
sal, produto tão importante na época que valia tanto quanto ouro. Sal este que
foi um dos motivos para a criação da Liga Hanseática, que instalou a rota do
sal entre Hamburgo e Lübeck para usar na preservação do pescado e da carne.
O céu estava bem carregado, mas assim como chovia, de repente abria o
solzão. Não foi só em Lübeck esta inconstância do tempo, pudemos comprovar em
todas as cidades por onde passamos.
A guia local nos levou pelas ruas de calçamento de pedra e prédios,
muitos deles reconstruídos após a quase total destruição durante a Segunda
Guerra Mundial por bombardeios dos britânicos. Visitamos a igreja de São Pedro
e a catedral de Lübeck. Ambas mostram sinais da guerra, que estão preservados
para ensinar as lições da História. Mas há uma lenda divertida, que a guia nos
contou. “Quando estavam construindo a igreja de Santa Maria, veio o diabo e
perguntou o que eles estavam erguendo ali. “Uma grande taberna”, mentiram para
não irritá-lo. Isto agradou o diabo e ele deu uma mão para que o edifício fosse
construído rapidamente.Somente quando a igreja estava quase terminada, o diabo
viu que o povo de Lübeck o havia enganado. Furioso, ele pegou uma enorme pedra
para destruir o prédio novamente. Então o povo disse ao diabo que queriam
realmente construir uma grande taberna bem ao lado, o Ratskeller. O diabo
soltou a pedra para que ela caísse perto da igreja. E lá está ela hoje, com um
demônio de bronze criado pelo escultor Rolf Goerler, sentado em cima.” Claro
que todos quiseram fazer uma selfie com o diabinho.
Numa das igrejas havia um barco sobrevivente de um naufrágio. Algo
importante, mas não anotei os nomes e lembrar nome alemão é um desafio e tanto.
Quando eu souber mais detalhes, edito o texto aqui.
Vimos a casa onde nasceu/viveu Thomas Mann (1871-1955), o escritor prêmio Nobel de Literatura de 1929, autor de “A montanha mágica”. A guia citou ainda dois cidadãos ilustres: Willy Brandt (1913-1992), ganhador do Nobel da Paz em 1971, e Günther Grass (1927- 2015), ganhador do Nobel de Literatura em 1999. Lübeck também é conhecida como a cidade das “Sete Torres”, devido às enormes torres de suas cinco principais igrejas. A igreja de Santa Maria é conhecida como a terceira maior de toda a Alemanha, enquanto a Catedral de Lübeck tem torres que atingem mais de 100 metros de comprimento.
Lübeck também é mundialmente famosa como a cidade do marzipan, um doce de
origem árabe, preparado a partir de uma pasta feita de amêndoas moídas, açúcar
e claras de ovos, que pode ser moldada e adicionadas essências. Em 1806, Johann
Georg Niederegger abriu uma loja especializada em marzipans em Lübeck, a qual
já forneceu o produto para reis e czares. Atualmente, Niederegger é a mais
famosa produtora de marzipan de Lübeck, e um dos seus principais pontos
turísticos, exportando os seus produtos para todo o mundo. Tivemos tempo para
almoçar e provar a delícia que faz a fama da cidade.
Voltamos para Hamburgo, onde passeamos mais um pouco pelo centro, desta
vez com o sol a iluminar as fotos. Retornamos ao hotel para jantar uma carne de
porco com legumes.
8 de maio, quarta-feira
Malas e viajantes a bordo, seguimos para Berlim. Novamente observamos as
plantações de colza, as placas de energia solar e as gigantescas torres de
energia eólica. Na metade dos quase 300 km do percurso, fizemos uma parada
necessária. Os banheiros são muito modernos. Para acessá-los, tem que depositar
0,70 euros. O bilhete que é emitido vale 0,50 euros para compras na lanchonete.
Muito limpos e de higienização automática. Alguns aparelhos sanitários giram o
assento para deixá-lo pronto ao próximo usuário. E todos os papéis higiênicos
que vi eram da marca Kleenex, a mesma dos lencinhos de papel.
Nosso hotel, o Park Inn, é um dos prédios mais altos da cidade, na
Alexander Platz. Segundo a Jamila, no lado vodca da Alemanha. No caso, na
região que pertencia à Alemanha Oriental, antes da reunificação. Lado
comunista, enquanto que o outro lado é chamado de Coca-Cola. Tivemos uma
primeira impressão da cidade no city tour de ônibus. A guia nos disse que o
urso é o símbolo da cidade, e, de fato, vimos muitos souvenires e enfeites com
este formato.
Fomos conhecer o muro de Berlim, o famoso muro que isolou parte da cidade
com seus 155 quilômetros de extensão. Eu esperava um muro muito alto,
intransponível, mas o que vimos do que restou não é nada assustador, a não ser
pelas histórias que a guia Bela nos contou e também pelo que já havíamos
estudado. Resumidamente: com o fim da guerra em 1945, a Alemanha foi dividida
em quatro zonas, ocupadas por Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e União
Soviética. A capital, Berlim, também foi dividida entre os quatro. A partir de
junho de 1948, a União Soviética bloqueou o acesso por terra ao setor ocidental
de Berlim, impedindo que alimentos e outros suprimentos chegassem a esta parte.
Para resolver a questão, o bloco capitalista criou uma ponte aérea até o
aeroporto de Tempelhof, em Berlim, no setor americano. Um ano depois, as três
zonas controladas por Estados Unidos, França e Grã-Bretanha foram transformadas
em República Federal da Alemanha, tendo Bonn como capital. No mesmo ano, a
parte controlada por soviéticos passou a ser República Democrática Alemã, cuja
capital ficou sendo Berlim Oriental.
Com a Guerra Fria, os soviéticos decidiram isolar Berlim Ocidental para
não influenciar o lado comunista. E a parte de Berlim que ficou livre virou uma
ilha cercada por socialistas-comunistas por todos os lados. Em 13 de agosto de
1961, o dia amanheceu com cercas de arame farpado ao redor da parte
capitalista. Para evitar que os orientais se mudassem para o lado ocidental,
foi construído o muro que separou famílias e durou até 1989, quando foi
derrubado. Um ano depois, as Alemanhas voltaram a ser uma só.
Então, o muro ou Berliner Mauer. De altura tinha/tem 3,6 metros. Mas
havia muitos obstáculos para cruzá-lo. Aliás, eram dois muros, com um espaço
entre eles chamado de “faixa da morte”. Arame farpado, cercas eletrificadas,
mais de 10 mil soldados com ordem para matar, cães treinados ... A parte que
visitamos é chamada de East Side Gallery, na margem do rio Spree. Algumas
pichações são famosas; 118 artistas de 21 países diferentes pintaram a
liberdade, a democracia, mas também ironizaram as ditaduras e a repressão a
elas associadas, como o desenho do beijo entre o premiê soviéticoLeonid
Brejnev; à direita, e Erich Honecker, o segundo e último premiê alemão
oriental. Obra do artista russo radicado na Alemanha, Dmitri Wrubel, baseado
numa fotografia do jornalista francês Régis Bossu.
Muitas pessoas se amontoavam para ver e tocar no que restou do muro,
apenas 1,5 quilômetro. Difícil fazer fotos naquele caos de estudantes e turistas.
Muito menos ouvir as explicações da guia local. Seguimos o passeio.
A próxima parada foi perto da estátua de Alexander von Humbolt, na frente
da universidade Humbolt, a mais antiga de Berlim, na avenida Under den Linden,
ou Sob as Tílias, nome original da via. As tílias foram cortadas e viraram
fogueira na guerra, ficou o nome. Atravessamos a rua e vimos no chão da
Bebelplatz o memorial em vidro no chão que mostra, lá embaixo, estantes vazias
para recordar os 25 mil livros de inimigos do Reich que foram queimados em 1933
– os livros, não os inimigos. Lá está escrito: “Onde se queimam livros, acabam
por queimar pessoas”. Frase de Henrich Heine em 1820, quase uma profecia
realizada.
Começou a cair uma chuvinha leve, o céu fechou a cara, como se já
estivesse anoitecendo. Não há como obter boas fotos assim. E infelizmente não
há como reter todas as informações que a guia repassava, a menos que estivesse
filmando. Fica, no entanto, a impressão de que de todo o horror que foi a
Segunda Guerra tem suficientes lembretes por toda a cidade e também que houve
um esforço para construir e reconstruir preservando a memória nacional.
Nossa próxima parada foi no checkpoint Charlie. Um grupo de atores posava
para fotos de turistas pagantes, ansiosos por registrar o teatrinho divertido
de um fato verídico. O checkpoint Charllie era o ponto de passagem de
estrangeiros e membros das forças aliadas da Alemanha Ocidental para a
Oriental. No chão, em alguns pontos há placas metálicas com a inscrição
Berliner Mauer 1961-1989 para indicar que naquele trecho havia muro.
A guia chamou a atenção também para a data 9 de novembro que repetidamente
significou um fato importante para a Alemanha, a ponto de ter um nome próprio: Schicksalstag
(literalmente dia do destino em língua alemã). Por exemplo, nesta data, em
1918, o imperador Guilherme II foi destronado e Philipp Scheidemann proclamou a
primeira república da Alemanha, a República de Weimar. Em 1923, deu-se o Putsch de Munique, uma tentativa de
golpe de estado que foi a primeira aparição do Partido Nacional Socialista
Alemão dos Trabalhadores em público. Já em 1938, a Kristallnacht (noite dos
cristais) marca o início do Holocausto. Foram mortos mais de 1300 judeus e
queimadas ou destruídas por outras formas muitas sinagogas e outras
propriedades dos judeus.
E nessa data, em 1989, caiu o muro de Berlim. Este acontecimento é visto
como o início da reunificação da Alemanha. Parece coincidência, mas fica uma
pitada de dúvida.
No passeio visualizamos a Porta de Brademburgo, a ilha dos Museus, a
avenida Kudamm e outros pontos que a memória mistura. Cansados, seguimos para
nossos quartos e depois do jantar só pensamos em dormir. Nosso quarto era no
18º andar, com uma boa visão da torre da tevê e das ruas salpicadas de obras.
Cidade plana, como toda a região alemã que conhecemos. Excelente para andar de
bicicleta, coisa que o povo faz muito.
9 de maio, quinta-feira
Nosso primeiro compromisso foi ir ao museu às 10 horas. Antes de sairmos,
fiz algumas fotos dos bibelôs de cerâmica em formato de urso na lojinha do
hotel.
O museu de Pérgamo está localizado na ilha dos Museus, a região histórica
e cultural preservada que abriga cinco museus tombados pela Unesco. Ele é o
museu mais visitado de Berlim e foi construído entre 1910 e 1930. Abriga
estruturas como o Altar de Pérgamo (entrada de um templo da antiguidade grega),
o Portão do Mercado de Mileto (construção
romana do século 2), a Porta de Ishtar (oitavo portão que dava acesso à cidade
da Babilônia) e a Fachada de Mshatta,
que fez parte do palácio Qasr Mshatta na Jordânia, entre outros tesouros.
Usamos os radinhos para ouvir as explicações da guia. Como sempre, a multidão
impedia a circulação normal e as fotos. Mas não pude deixar de pensar em quanto
os povos de origem perderam com o transporte das relíquias para a Alemanha. Ou
será que foi sorte que tenha sido assim, pois de outra forma nem existiriam
mais?
Depois da visita ao museu, seguimos para um embarcadouro no rio Spree,
onde apreciamos o passeio de barco ouvindo um audioguia que indicava os pontos
a serem vistos. Choveu um pouquinho e cada um se abrigou como pôde. Vale a pena
investir neste recurso turístico. A arquitetura apresenta-se em várias escolas,
inclusive a famosa Bauhaus. Prédios históricos, outros do cotidiano, alguns
oficiais, outros que são cenário para a política atual, enfim, tivemos uma aula
ao ar livre muito rica e interessante. A senhora Angela Merkel é sempre citada
pelos guias como uma personagem da maior importância na atualidade. E parece
que ela é muito admirada e querida também.
Depois do minicruzeiro fomos liberados. Cada um escolheu o que faria na
tarde livre. Eu saí a caminhar com um casal companheiro de viagem, mas eles
escolheram um restaurante para almoçar e eu preferi ir atrás da verdadeira
salsicha berlinense. Encontrei um quiosque que vendia a currywurst com batatas
fritas. A salsicha é grelhada na chapa e servida com molho de ketchup e curry,
o tempero apimentado indiano. Foi servida em pratinho de papelão com garfo e
faca de plástico. Delicioso!
Continuei a caminhada pelas ruas, bem segura de que não me perderia.
Bastava olhar para a torre da tevê para saber a direção da Alexander platz e,
consequentemente, o hotel. Segui a direção oposta e cheguei á loja da Nivea, a
Nivea Haus. Comprei algumas coisinhas, inclusive um kit de viagem muito barato
e prático. Depois voltei pelo mesmo caminho. Consegui ver a cruz formada pelo
reflexo no sol na torre da tevê.
Quando estava
voltando para o hotel, encontrei um companheiro da excursão que estava indo à
loja da Nivea. Dei-lhe dinheiro para comprar mais dois kits. Ele comprou sim,
mas do tamanho grande, de quase um quilo cada pacote! Ainda bem que minha
colega de quarto tinha espaço na mala, pois foi ali que consegui ajeitar os
ditos cujos. Eu não expliquei exatamente qual era o kit. Se ele perguntou à
vendedora, ela mostrou o maior. Foi engraçado.
Tivemos o jantar adiantado para dar tempo de fazer o passeio noturno.
Fomos conhecer o bairro judeu, onde a trágica Noite dos Cristais aconteceu, no
período de perseguição étnica. Se não estivéssemos acompanhados pela guia,
certamente teríamos nos perdido no labirinto de prédios baixos e pequenos
jardins que formam a Rosenthaler.
A guia contou a história de Alice Licht, uma jovem trabalhadora da
oficina levada para Auschwitz. O patrão, mesmo cego, seguiu sozinho, de trem, e
deu um jeito de resgatá-la e trazê-la de volta para que ela emigrasse para os
Estados Unidos. O museu estava fechado naquele horário.
No chão, vimos plaquinhas em metal com algo escrito. Ficamos sabendo que
são as “pedras do tropeço” e existem mais de 60 mil no chão da Europa. As stolpersteine, feitas por iniciativa de
Gunter Demnig, são colocadas na frente da residência ou trabalho das vítimas do
nazismo.
Continuamos o passeio noturno até o prédio do parlamento, depois
caminhamos ao Portão de Brademburgo, ao lado da embaixada dos Estados Unidos, e
seguimos com uma travessia muito original por uma praça às escuras onde não se
veem árvores nem bancos, apenas blocos de concreto em tamanhos variados, como
túmulos muito próximos. Quem ousou um pouco mais atravessou a passagem
iluminando o caminho com a lanterna do celular. O Memorial aos Judeus Mortos da
Europa ou como é mais comumente chamado Memorial do Holocausto (Holocaust-Mahnmal),
do arquiteto americano Peter Eisenman. É,
como o nome já indica, um memorial dedicado aos seis milhões de judeus mortos
durante o regime nazista. Foi inaugurado em 2005, durante a celebração dos 60
anos do fim da Segunda Guerra.
São 2.711 blocos espalhados em 19 mil m² de área, com 2,38m de
comprimento por 0,95m de largura e a altura varia de 0,2m até 4,8m. Próximos
dali há um memorial dedicado aos homossexuais e outro às minorias sinti e roma,
todos vítimas da perseguição nazista.
Finalizamos indo ao Sony Center, um conjunto arquitetônico
impressionante, na Postdamer Platz. O complexo tem um dos melhores cinemas de
Berlim, restaurantes, livrarias e funciona também como centro empresarial, onde
várias empresas têm seus escritórios. Quando o muro de Berlim foi construído, a
Postdamer Platz foi dividida ao meio. Depois da reunificação, foi construído o
Sony Center no ano 2000. O conjunto possui uma iluminação do telhado especial,
realizada pelo artista parisiense Yann Kersalé para refletir a luz do sol ou do
luar de maneira espetacular. À noite, as luzes mudam de cor a cada 20 segundos.
Além de uma loja da Sony, tem uma da Lego, a Legoland Discovery Centre.
Voltamos para o hotel para descansar. A programação do dia seguinte
começaria às oito horas.
10 de maio, sexta-feira
Seguindo a programação, partimos às 8h em direção a Potsdam, capital do
estado de Brademburgo e que faz fronteira com Berlim pelo rio Havel. De acordo
com a Wikipédia (já que a memória apagou as explicações da guia), “Potsdam é
mundialmente conhecida por seu legado histórico como residência dos reis da
Prússia, bem como pelo grande número de belos parques e palácios, entre outros
o Palácio de Sanssouci. O conjunto, englobando 500 ha de parques e 150
edifícios erguidos entre 1730 e 1916, foi nomeado Patrimônio Cultural da
Humanidade pela UNESCO em 1990”.
Nossa primeira parada foi para visitar o palácio Cecilienhof, cenário
preservado da histórica conferência de Potsdam, que ocorreu entre 17 de julho e
2 de agosto de 1945, na qual os líderes aliados vitoriosos (Roosevelt,
substituído por Harry S. Truman, Winston Churchill e seu sucessor, Clement
Attlee, e Joseph Stalin) se reuniram para decidir o futuro da Alemanha - e da
Europa em geral - do pós-guerra.
O local, no Jardim Novo, mais parece uma casa de campo inglesa e é hoje
um hotel. Por ser um local pequeno, a visitação deu-se em fila indiana, com
audioguia. O interior do palácio expõe reportagens, fotos, explicações e
mobiliário preservado. Com um pouquinho de imaginação é possível “ver” os
poderosos, cercados de auxiliares, decidindo como colocar ordem no caos
pós-guerra. E talvez como aproveitar o momento para levar alguma vantagem.
O Schloss Cecilienhof foi o último palácio a ser construído pela dinastia
dos Hohenzollern, entre 1914 e 1917. O Imperador Guilherme II, último kaiser da
Alemanha, ordenou que ele fosse construído para seu filho, o príncipe Guilherme
da Prússia, e sua esposa, a princesa Cecília Augusta Maria de
Mecklemburgo-Schwerin (20 de setembro de 1886 - 6 de maio de 1954). Vale a pena
ler a biografia da princesa. Foi uma mulher muito avançada para a época, tendo
permanecido no palácio até o último minuto possível, apesar de o resto da
família imperial estar no exílio havia anos.
Não visitamos a outra atração do Neuer Garten, o Marmorpalais, um palácio
com fachada de mármore construído no século 18. Passeamos pelos jardins,
apreciando a primavera alemã. Seguimos de ônibus para a próxima parada, da qual
só vimos o exterior. Tem o bairro holandês, com 150 casas no estilo das que se
veem em Amsterdam, feitas de tijolinhos vermelhos; o bairro russo, também com
construções típicas, e o bairro francês, com suas belas igrejas. É que a cidade
sempre recebeu muitos imigrantes de outros países, que lá se estabeleceram para
servir à Corte Imperial. Vimos o moinho, as charretes para passeios, a
igrejinha... E um músico vestido à moda imperial tocando sua flauta,
completamente integrado ao ambiente.
O palácio de Sanssouci (do francês: sem preocupações) é muito bonito, com
numerosos templos, jardim muito bem cuidado e o parque. A guia contou que,
apesar de tudo ter sido projetado por um arquiteto, o próprio Frederico II da
Prússia desenhou os espaços que idealizara para descansar e receber os amigos
mais próximos. O jardim lembra muito Versalhes, de onde veio a inspiração
arquitetônica. Num canto, aos pés de uma estátua, algumas placas no chão
isolado por cerca indicavam que ali estavam sepultados os cães da família. E também o próprio Frederico II e as batatas.
A guia contou que havia uma relação entre
Frederico o Grande e as batatas, que o povo coloca sobre seu túmulo como
homenagem. O túmulo é praticamente igual ao dos cães, sem nenhuma ostentação.
Dizem que Frederico queria que os agricultores locais plantassem batatas –
inexistente até então -, mas houve resistência. Ele mandou que seus empregados
plantassem nas laterais do palácio. Na época da colheita, chamou os
agricultores que se deram conta do erro e ficaram muito agradecidos ao
imperador, porque assim escaparam da fome.
O dia estava bem luminoso, a vegetação brilhava e convidava a passear pelos canteiros bem cuidados. Entre os níveis do parque, as vinhas brotavam e já ostentavam os cachos minúsculos.
Continuamos até o centrinho histórico, onde descemos e aproveitamos para
comer alguma coisa. As ruas calçadas de pedras lisas e retangulares ofereciam
poucos locais para refeição, mas a gente sempre dá um jeito. Peguei alguns
folhetos para ver depois o que era e fiquei surpresa. Havia uma exposição do
Salvador Dali e outra do Picasso na pequena cidade. Não daria tempo, mas serviu
para ter ideia do envolvimento cultural na região. No horário marcado, voltamos
para Berlim.
Como havia mais tempo livre, fui com mais seis companheiras apreciar o
visual da torre da televisão, a Berliner Fernsehturm, localizada bem em frente
ao nosso hotel, na Alexanderplatz. A altura total é de 368 m. Diz a Wikipédia:
“Existe uma plataforma para visitantes e um restaurante giratório no centro da
esfera. A plataforma de visitantes está a uma altura de 203 m acima do solo e a
visibilidade pode chegar a 42 km em dias claros. O restaurante, que gira uma
vez a cada 20 minutos, está a poucos metros acima da plataforma. Dentro do eixo
central há dois elevadores para trazer visitantes para a esfera da torre,
levando 40 segundos para chegar. Não é acessível por escadas. Devido ao seu pequeno
tamanho, há longas esperas na base da torre.” Verdade, há uma espera bem chata,
no mezanino. Mas como os ingressos (16,50 euros) são numerados, basta
acompanhar num monitor. Um dos guardas se animou todo com as brasileiras. O
restaurante fica no andar superior, que não visitamos.
Não se percebe o movimento quando se está lá em cima. O visual é muito
parecido de qualquer janela que se olhe. Tem que prestar bastante atenção para
reconhecer os prédios já conhecidos ou o rio. O que se vê é uma cidade grande,
de construções baixas e ruas retas.
O edifício do shopping center foi o ponto final do dia para a maioria dos
viajantes. Localizado praticamente em frente ao hotel, era muito tentador. Na
Alexanderplatz havia outras lojas boas para comprinhas, e foi o que fizemos,
até a hora do jantar.
11 de maio, sábado
Às 7h30 percorremos cerca de 200 quilômetros o rumo a Dresden, capital da
Saxônia quase totalmente destruída pelos aliados no dia 13 de fevereiro de 1945.
Chegamos lá com chuva. Paramos próximo à margem do rio Elba, para nossa visita
panorâmica molhada. Nenhuma visita estava programada, portanto, pernas pra que
te quero. Lamentei muito não ter tempo para visitar pelo menos um museu. Caminhamos
pelas ruas, ouvindo as informações da guia pelo radinho; um músico, ao nos
ouvir falar em português, tocou nosso Hino Nacional. As gorjetas foram boas.
Impressionante mesmo é a obra bastante conhecida e muito peculiar de
Dresden, a Fürstenzug, que significa Procissão dos Príncipes, localizada na
área exterior do Stallhof, na Schlossplatz – praça do Palácio. Trata-se de um
mural de mais de 100 metros de comprimento em azulejos que mostra a história da
família real da Saxônia, os Wettins. Mais de mil anos de história estão ali
representados. A guia, em seu espanhol aportuguesado, destacou o rei Augusto, o
Grande.
Ao meio-dia fizemos uma pausa para que cada um fizesse o que queria. Fui
almoçar com minha colega de quarto no Edelweiss, restaurante típico dos Alpes.
Comi batatas rösti com bacon triturado, salada verde e dois ovos fritos. O
local era bem acolhedor e aconchegante, em frente à Frauenkirche. Perto também
vimos uma feira de comidas, bebidas, artesanato e diversas quinquilharias.
Muitas flores e sementes. Os turistas, às centenas, se misturavam com a
população local, numa bagunça de guarda-chuvas e capas e gente molhada.
Às 14h30 nos reunimos para seguir a viagem. Mais 300 quilômetros até
Nuremberg, onde chegamos à noitinha. Depois do jantar, algumas pessoas ainda
estavam com energia para dar uma voltinha, inclusive eu. Atravessamos um túnel
sob a avenida em frente ao hotel e nos vimos num labirinto meio escuro, tendo a
muralha da cidade numa das laterais. Com um pouco de receio, seguimos em frente
até um centrinho perto da igreja. Andamos mais um pouco e resolvemos voltar.
Estava todo o comércio fechado e o frio mandava ir para a cama.
12 de maio, domingo
Começamos bem cedo a conhecer a parte antiga da cidade, quase o mesmo
lugar por onde andamos à noite, mas de dia tem outro visual. Antes de descermos
do ônibus, apreciamos a calma da cidade no domingo do Dia das Mães, suas ruas,
sua paisagem urbana.
A guia Hanna contou que Nuremberg, a segunda maior da Bavária, atrás de
Munique, foi a cidade escolhida por Hitler para ser a sede do parlamento
nazista, onde realizou os primeiros discursos inflamados que o caracterizaram. Mas
foi depois da 2ª Guerra Mundial que Nuremberg chamou a atenção do mundo, pois
foi lá, entre 1945 e 1949, que foram realizados os julgamentos dos líderes
nazistas. Não descemos para ver, mas soubemos que os tribunais têm exposição de
documentos desses julgamentos.
Passamos de ônibus no centro de documentação nazista, Reichsparteitagsgelände,
que lembra muito o Coliseu de Roma, na Itália. Ali aconteceram grandes desfiles
e festas do partido. Há um museu atualmente no local. Como Dresden, Nuremberg
foi duramente atingido pelas bombas. Cerca de 90% da cidade foi destruído, como
retaliação ao acolhimento a Hitler e companhia.
Descemos para apreciar a parte histórica antiga, quase toda reconstruída.
Nota-se em vários prédios que foram usadas partes originais, criando um jogo de
claro-escuro significativo. Andamos pelas ruas principais, ouvindo as
explicações da guia pelo radiozinho. Vimos de dia o que à noite estava meio
sinistro. A muralha é muito linda e custa-se a acreditar que aquilo tudo veio
abaixo na guerra. Não visitamos nada por dentro, mas o conjunto medieval
impressiona. A torre, as casinhas estilo enxaimel, as lojinhas, tudo
harmonioso. A guia contou que a lebre que víamos em monumentos e livros
expostos e as mãos em oração se referem à obra do famoso Albrecht Dürer, um
famoso pintor renascentista que viveu no século 16. A casa de Dürer foi também
seu local de trabalho, e ele viveu neste lugar entre 1509 e 1528.
A St. Lorenz Kirche é muito linda. Essa igreja do século 13 é a principal atração da praça. Com duas torres altas, ela se destaca entre as baixas construções da cidade. Seu interior também é bonito, com vários altares góticos e belos vitrais. A construção da basílica de três naves começou em torno de 1250, mas o seu coro gótico foi concluído somente em 1477. O patrono da igreja é São Lourenço, mas desde a Reforma é uma das duas principais igrejas protestantes da cidade de Nuremberg. A construção foi gravemente danificada durante a Segunda Guerra Mundial, sendo que ela foi reconstruída tal e qual como era antes da guerra.
Uma das fotos mais interessantes que tirei foi do Heilig-Geist Spital, o
antigo Hospital Espírito Santo, construído em 1332. Este lugar foi um dos
maiores hospitais construídos na Idade Média e a maior instalação urbana para o
atendimento dos doentes e idosos da cidade. Hoje o lugar abriga algumas das
joias da realeza, que foram mantidas em Nuremberg de 1424 a 1796.
Andamos até a Rauenkirche. A belíssima catedral nem é muito grande, mas
impressiona. Construída entre 1352-58 em
estilo gótico, ela foi encomendada pelo imperador Karl 4º. Outro atrativo é o
relógio da fachada. Ele faz um desfile de bonecos mecanizados todos os dias, ao
meio-dia, que prestam homenagens ao imperador. Em frente fica um espaço vazio,
muito grande, onde se realiza a feira principal da cidade. No Natal, a feira é
especial e conhecida internacionalmente.
Ao lado da catedral está uma fonte incrível! Dizem que quem der três
voltas nela com certeza retornará à cidade. Esta é uma réplica da fonte gótica
de 1385. A fonte original pode ser visitada no museu Nationalmuseum
Germanisches. A Schöner Brunnen – Fonte Bonita - simboliza a visão teocêntrica
do mundo na Idade Média. Em quatro séries de figuras, de cima para baixo vê-se
a filosofia e as sete artes liberais, os quatro evangelistas como
representantes do clero, os sete eleitores que tinham direito a voto na eleição
do imperador, junto com os nove heróis da história mundial. E finalmente,
Moisés com os sete profetas.
Marcamos de nos encontrar ao lado da fonte e cada um escolheu o que
fazer. Eu e minha amiga quisemos almoçar. Escolhemos um restaurante que nos
serviu a tradicional salsicha de Nuremberg. Pequena, do tamanho de um dedo,
esbranquiçada e levemente temperada, a “original Nürnberg rostbratwürste” tem
carne de porco, de gado e, às vezes, de vitela. O repolho (chucrute)
acompanhava, junto com a cerveja. Uma das lendas para o tamanho (de seis a nove
centímetros) diz que são finas porque precisavam ser passadas pelo buraco das
fechaduras das casas no fim da era medieval, durante o surto da peste negra.
Outra diz que o bar fechava, mas as salsichas continuavam a ser passadas pelos
fregueses por buracos nas portas. Ou ainda que eram o alimento dos prisioneiros
que conseguia passar pelas fendas da prisão.
Outro quitute tradicional da cidade é o lebküchen, que é um pão de mel
feito com gengibre e especiarias, mas não provamos.
Seguimos para o ônibus por mais algum tempo de estrada até Rothenburg ob der
Tauber, a fortaleza vermelha sobre o rio Rauber. Cidadezinha encantadora, saída
de um livro de histórias. Casas típicas em enxaimel, floreiras explodindo em cores,
lojinhas (algumas fechadas, pois é domingo), restaurantes. Por falar em
restaurantes, observei que os cartazes às portas estavam escritos em alemão,
inglês e mandarim. Olha só! Faz sentido, porque vimos muitos turistas de
olhinhos puxados.
Deixamos o ônibus ao lado da muralha e seguimos a Jamila por um beco de
acesso ao centrinho. Andamos livremente no tempo permitido, cada um no seu
ritmo. Comi um dos pratos mais típicos, as Schneeballen, ou “bolas de neve”, um
doce que casou bem com uma xícara de chá preto.
Visitei a Käthe Wohlfahrt, maior loja de produtos de Natal da Europa que
fica aberta durante o ano inteiro. Não pode fotografar lá dentro. Não fui, mas soube que tem por lá o Museu
Alemão do Natal. No fim do ano, acontece o Reitlersmarkt, um mercado de Natal
que possui 500 anos de tradição. Mas a loja estava muito cheia e a visitação
e/ou compra fica complicada.
O trecho a seguir eu copiei do site https://pt.theplanetsworld.com/2115-rothenburg-ob-der-tauber-d-ba-rot-pt:
""Passeando ao longo da Schmiedgasse, uma antiga e bela rua que vai do Marktplatz para o sul, você chegará ao nº3, a Casa do Mestre Construtor (Baumeisterhaus). Este belo e antigo edifício, com a sua espetacular fachada de 1596, é amplamente considerado como uma das melhores casas renascentistas da Baviera e foi onde o Mestre Construtor de Rothenburg, Leonard Weidmann, viveu e trabalhou. Um testamento de suas habilidades, a casa é famosa por suas esculturas de motivos de dragão, juntamente com estátuas representando as sete virtudes cardeais e os sete pecados capitais".
Há vários museus, inclusive um dedicado a crimes e torturas. A cada hora
cheia, das 10h às 22h, o relógio astronômico vira atração. As portinhas no alto
do prédio e saem figurinhas divertidas. Olhando para ele, vemos: o grande
relógio da cidade de 1683, que exibe a data, um mostrador do sol de 1768 e o
brasão da cidade. Há uma lenda contada nestas aparições e também recriada todos
os anos desde 1881, que é Der Meistertrunk - a Farra. Vou copiar lá do blog
Viaja Daqui:
“A mais famosa história de Rothenburg refere-se ao prefeito Nusch, que,
com a cidade sitiada, aceitou o desafio imposto pelo general Tilly de tomar em
um só gole, um cântaro contendo mais de três litros de vinho. O episódio
ocorreu em 1631, durante a Guerra dos Trinta Anos, quando o católico general
Tilly desafiou: “Se um de vocês tomar em um só gole este cântaro de 3,25 litros
de vinho, prometo não saquear e nem destruir esta cidade”. O prefeito Nusch de
uma só tomada bebeu todo o vinho salvando a cidade e seus habitantes.”
Falta falar da esquina famosa, o cartão postal chamado o Plönlein. É um
edifício estreito, com uma fonte na frente, com a torre Kobolzeller e a Torre
Siebers ao fundo, como moldura.
Depois desse passeio que deixou vontade de prolongar, continuamos de
ônibus em direção a München – Munique, capital
da Baviera. Chegamos ao anoitecer, então não havia nada a fazer a não ser
jantar e descansar.
13 de maio, segunda-feira
Fizemos uma visita panorâmica meio rápida, mas já deu para perceber que Munique é uma cidade bonita, com muito verde e também muitas histórias.
Fomos direto
visitar a fábrica da BMW, um sonho de consumo e tecnologia de ponta. Ficamos
mais de uma hora olhando os carros e motos em exposição. Além de bonitos, estão
muito adiantados em relação a combustível e controles automatizados. Não vimos
o museu da BMW nem o Allianz Arena, do time Bayer de Munique, o estádio mais
moderno da Europa.
A Vila Olímpica, também, foi muito en passant . O parque, que é bem bonito, está instalado sobre seis
milhões de escombros aterrados da Grande Guerra. Em 1971 aconteceram os 20º
Jogos Olímpicos de Verão em Munique, que entraram para a história pelo
assassinato de vários esportistas judeus por terroristas palestinos. Foi bom
não ter visto. Chega de tragédias.
De ônibus fica muito difícil acompanhar as indicações da guia. Os prédios
acabam se confundindo na memória. Mas vi uma escultura muito interessante. Para
mim, era a figura de uma pessoa vomitando sangue. Não sei realmente o que
significa. Tem outra, gigantesca, The Walking Man, uma escultura de 1995 de
Jonathan Borofsky, com 17 metros de altura e 16 toneladas de peso. Está
localizado na Leopoldstraße. Também não entendi o que significa, mas é
impressionante.
Tentei muito fotografar o monumento do Anjo da Paz
(Friedensengel), localizado na
Prinzregentenstrasse, perto do aterro do Isar, mas desisti. Procurei uma imagem na internet, mas não sei quem é o autor. O Anjo comemora os 25 anos de paz que se seguiram à
guerra de 1870-71 contra a França.
Continuamos com a guia local, Lélia, em portunhol compreensível. Ela nos
informou que o Englischer Garten é maior que o Central Park de Nova York. O parque
é muito bonito, e ainda tem uns atrativos originais. Por exemplo, os surfistas
no rio Isar, onde uma onda criada artificialmente garante a diversão. Outro
atrativo acontece no verão, quando os alemães curtem tirar toda a roupa para
pegar sol. Toda a roupa!
Sem descer do ônibus, apreciamos o Nymphenburg, um palácio em estilo
barroco, do século 17. O local serviu como residência de verão da monarquia da
Bavária e atualmente é aberto à visitação. É enorme. Não consegui fotografá-lo
todo de uma só vez.
A cidade está em obras. Deixamos o ônibus perto da rua das lojas de grife
e seguimos a pé para ver a Marienplatz, com sua prefeitura e igreja
deslumbrantes. Na Idade Média, a praça se chamava Schrannen e era local de
torneios e festas. Mais tarde seu nome mudou para Marienplatz como um pedido de
ajuda à Virgem Maria para proteger a cidade de uma epidemia de cólera.
A Neues Rathaus – Nova Prefeitura - é o prédio que mais chama atenção na
Marienplatz, e em um primeiro momento muitos o confundem com uma igreja. A
turistada se concentra na frente do prédio para assistir ao carrossel, que
começa a se movimentar com o toque dos sinos, diariamente às 12h e às 17h; os
bonecos tomam vida e dançam no topo da torre, representando histórias do século
16 da Baviera. É um espetáculo que dura entre 12 e 15 minutos.
Bem pertinho dali, tem o Viktualienmarkt, uma praça onde rola o mercado
mais famoso de Munique, ao ar livre e aberto todos os dias. Ali tem um pequeno
biergarten e diversas opções de comida, sendo um ótimo lugar pra fazer uma
pausa para o almoço, e estava lotado. Foi lá que fiz um lanchinho à base de
salsicha, claro. Eu até procurei a famosa torta Schwarzwald Kuche, ou Floresta
Negra, especialidade da região, mas não achei.
Juntamos os viajantes e seguimos de ônibus por 130 quilômetros para
visitar o castelo de Neuschwanstein, construído pelo rei Luís 2º da Baviera, o
Rei Louco. Este castelo é tão bonito que serviu de inspiração, dizem, a Walt
Disney para criar o castelo da Cinderela, símbolo da Disney. Neu significa
novo, schwan quer dizer cisne e stein é pedra. Ele foi construído perto do
castelo de Hohenschwangau, ali perto, que, por sua vez, fora edificado sobre os
escombros do antigo Schwanstein. Ambos atualmente ficam perto do lago Schwansee,
na região de Schwangau.
Chegamos lá em cima, nos contrafortes do impressionante monumento à
beleza, à graça e até mesmo à modernidade em seu tempo. O rei, que de louco não
tinha nada, idealizou em 1869 uma obra que foi construída com o que havia de
novidade na época, apesar do aspecto medieval. Tinha água quente e fria,
banheiros com descarga automática, calefação, uma espécie de telefone, um grill
giratório ao calor na cozinha, eletricidade, entre inúmeras inovações.
Coitado, quando o castelo estava prestes a ficar pronto, em 1886, a
comissão do estado da Baviera o declarou incapaz. Poucos dias depois, o corpo
dele foi encontrado afogado, bem como o do médico que atestou a insanidade. Ele
era uma pessoa sensível, amante das artes. Foi um incompreendido.
Pena que a gente não podia fotografar. Todos os salões são magníficos e
estão em processo de manutenção/restauração. Mas tem um local, lá dentro, que
me chocou. O rei mandou construir uma pequena gruta, originalmente com uma
cascata artificial, com estalagmites e estalactites inclusive. A ideia dele era
representar a gruta do Monte de Vênus, da ópera Tannhäuser, de Richard Wagner,
a quem o rei admirava demais.
Ao descer, provei o vinho quente maravilhoso, o glühwein. E trouxe a
caneca comigo, óbvio.
Voltamos para Munique porque ainda nos faltava cumprir mais um item da
agenda: o jantar na Hofbräuhaus. Mais de 400 anos de tradição em cervejaria, já
pensou? Fundada em 1589 pelo Duque William 5º da Baviera para consumo apenas da
realeza, a HB não é a mais antiga do mundo. A cervejaria mais antiga em
funcionamento é a Weihenstephan, localizada na Baviera também, na cidade de
Freising (30 km de Munique), fundada em 1040. Somente em 1828, por ordem de
Luís 1º, cujo casamento deu início à Oktoberfest, as portas foram abertas ao
povo. Mas durante a guerra tudo foi abaixo, tendo sido reconstruída em 1958.
Uma bandinha típica toca entre um gole e outro de cerveja. De vez em
quando um casal dança à base de rodopios que me deixaram tonta. Não havia
coreografia, só giros. O jantar foi servido pouco tempo depois: joelho de
porco. Para minha surpresa, estava muito saboroso. A casa estava lotada.
Voltamos para o ônibus e para o hotel. O dia foi longo e bem aproveitado.
14 de maio, terça-feira
Último dia na Alemanha. Aproveitamos a manhã para passear na Marienplatz
novamente. Não havia muito tempo, porque marcamos o horário de saída para o
aeroporto às 10h30. Mas o dia estava lindo, ensolarado, e valeu a pequena
caminhada pelo centro.
Pegamos um voo até Paris, de lá para São Paulo e depois para
Florianópolis. A Alemanha imperial e imponente, como o título da excursão,
tinha sido apresentada a nós em rápidas imagens. Ficou muita coisa por ver,
como acontece nas boas viagens. Nem todas as impressões foram alegres, o que é
aceitável, haja vista o passado recente e tão dramático. A geração que viveu a
Segunda Guerra Mundial ainda está por aí, atestando o que os livros de História
registraram. Se tudo o que foi vivido e sofrido não for esquecido totalmente,
talvez haja esperança de que não se repita nunca mais.
Agradeço ao Sesc, especialmente na pessoa de nossa líder Andréia. Não foi
a primeira vez que viajei com ela, mas desta vez ela teve mais trabalho.
Felizmente, o grupo foi bem harmonioso e participativo. Só isto já garante o
sucesso da viagem. Até a próxima!
























































































































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