E eu que pensava que já conhecia o Pantanal porque visitara
Bonito, no Mato Grosso do Sul! Fora os mais de 900 km de distância um do outro,
o Pantanal que vi naquela ocasião é bem diferente deste que conheci em
fevereiro de 2019, junto com um grupo de 15 viajantes apaixonados por
fotografia, levados pelo Sesc/SC.
O nome da viagem é Expedição Fotográfica Pantanal, liderada
pelo renomado fotógrafo Zé Paiva. Eu meio que me infiltrei entre os
especialistas com suas câmeras poderosas e infinitos acessórios. Com a minha
Nikon D3100 e o celular, compartilhei o sentimento de encantamento com as
paisagens deslumbrantes desta região ímpar. Em plena estação das cheias, embora
os locais mostrem as marcas ainda não atingidas na vegetação, faltando quase um
metro ainda, fomos muito felizes neste passeio.
Vimos poucos animais. Onça mesmo, só aquela que enfeita o
jardim do Hotel Sesc Porto Cercado. Virou piada interna. Quem esperava ver
jacarés dormindo usando outro jacaré como travesseiro vai ter que retornar na
época da seca. Mesmo assim, vimos os jacarés que moram ao lado do ancoradouro
do hotel e também nos alagados da rodovia Transpantaneira.
Os pássaros também se esconderam de nós. Os mais frequentes
observados foram a garça moura, o cafezinho, tuiuiús, caturritas espalhafatosas
e outros mais comuns.
Mas vamos dia por dia neste relato.
Quarta-feira, 20 de
fevereiro
O povo vindo de Joinville, Jaraguá do Sul, Itajaí, Balneário
Camboriú e Florianópolis se juntou próximo ao balcão da Gol para despacho de
mala. Quem se conhecia se abraçou feliz, quem ainda não se abraçou igualmente feliz.
Viajar em grupo permite estes encontros que reforçam a amizade e ampliam o rol
de conhecidos. Eu já conhecia a Elza, minha parceira de quarto, que, com a
Sumiê, esteve comigo no Jalapão. Tinha lá também a Berna, companheira de grupo
na viagem a Espanha, também pelo Sesc.
Houve uma mudança no nosso voo e tivemos que fazer uma
escala em Brasília, onde esperamos um tempão para embarcar rumo a Cuiabá. Foi
um chá de aeroporto associado ao encurtamento do dia em uma hora, por causa do
fuso horário local. Na capital mato-grossense continuamos a viagem numa van até
Poconé, onde paramos rapidamente na unidade local do Sesc.
A cidadezinha é bem pequena, com 32 mil habitantes, segundo
o IBGE. O Sesc assumiu uma importância que faz a diferença na região,
especialmente por oferecer ensino fundamental e diversas atividades em
benefício da população. Não descemos para passear, dessa vez. Queríamos chegar
logo ao nosso hotel.
Ficamos muito impressionados com a estrutura do Hotel Sesc
Porto Cercado. Já eram 19 horas quando desembarcamos da van, e o jantar estava
sendo servido. Foi o tempo de pegar o cartão, largar a mala no quarto e voltar
para comer decentemente, depois de um dia de biscoitinhos integrais oferecidos
nos voos. Pelo bufê do jantar deu para ter uma ideia do tanto de comilança que
nos esperava nos próximos dias.
Após a janta, nos reunimos no salão do centro de eventos.
Nós e os mosquitos pantaneiros. Ainda bem que fomos avisados para levar
repelente. Nosso líder Zé Paiva nos proporcionou uma brincadeira em que cada um
recebia um rolo de barbante, segurava seu pedaço de cordão, contava aos demais sobre
quem era e suas experiências e expectativas com o passeio. No final, quando o
rolo voltou às mãos do Zé, o desenho formado no centro do círculo mostrava
nossa conexão no grupo e com o ambiente que estávamos para fotografar.
Não conseguíamos nos manter acordados, especialmente porque
a alvorada no dia seguinte seria às 4h30.
Quinta-feira, 21 de
fevereiro
Não é fácil levantar tão cedo, entretanto, queríamos ver o alvorecer
no rio Cuiabá. Pontualidade foi a marca registrada deste grupo. No horário
determinado, o guia Adenilton nos encontrou no quiosque dos passeios, que
passamos a chamar de “quiosque dos mosquitos”. Cada um recebeu um colete
salva-vidas e as recomendações para NUNCA deixar de usá-lo a bordo nem pôr a
mão na água, bem como avisar o piloto se queria levantar-se para fotografar.
O barco totalmente aberto permite que se navegue
confortavelmente sentado e, o melhor, ninguém atrapalhe a foto do companheiro.
Em plena escuridão, subimos o rio Cuiabá observando as margens. O monitor
provou ter olhos muito bem acostumados com a paisagem. Nos apontava os pássaros
e as árvores, de olho em possíveis animais. Seguimos rio acima até a barra do
Piraí (não tenho certeza do nome), contornamos a ilha formada pela enchente e
voltamos pelo caminho de ida.
Não lembro em que momento Zé Paiva nos chamou a atenção para
a blue hour, quando o sol está escondido no horizonte, mas o céu revela cores
fantásticas no amanhecer ou entardecer. Tem também a golden hour, ou hora
mágica, quando o sol está nos finalmentes para se esconder ou bem no início do
amanhecer, quando a luz é mais avermelhada e suave. Mais uma lição do mestre.
O dia raiou um tanto nublado e agradável de temperatura. No
meio do rio os mosquitos dão trégua. O passeio durou duas horas.
Os colegas portadores das lentes mais poderosas descobriram
inúmeros pontos de interesse, porém nem todos estavam a fim de fotografar com
técnica. Uma foto no celular também valia. Pena que o aparelho no pau de selfie
da menina tenha caído no rio. As brincadeiras foram inevitáveis sobre a farra
que as piranhas estavam fazendo com o telefone.
Voltamos ao hotel com o sol no alto para tomar café e logo
em seguida retornamos ao barco para ir conhecer a casa do pantaneiro.
Aprendemos sobre os corixos, os canais que ligam ao rio os lagos, lagoas, baías
e alagados. A palavra meandro nunca mais será a mesma para mim, agora que sei
seu significado em relação ao curso cheio de curvas dos rios. Aliás, aprendemos
muitas coisas com nossos guias-piloteiros. Todos os que nos conduziram são
nativos do Pantanal e o conhecem de olhos fechados. Isto é muito bacana.
Sabiam com certeza se era um martim-pescador, uma jacutinga,
um gavião, um socó-boi, uma jaçanã, um biguá ou outro pássaro. Viam a silhueta
e distinguiam o macaco do bugio – e se era fêmea ou macho. O carcará
(cará-cará), que eu conhecia só da música, agora tem imagem na minha memória.
E
a garça-moura, nossa frequente modelo de fotos, soube que chega a 1,25m de
altura e 1,80m de envergadura de asas. Chamada também de joão-grande, maguari,
socó-de-penacho e outros nomes, vive sozinha quase o tempo todo, com exceção do
período de acasalamento. É a maior garça do país.
Com o sol a torrar a cabeça, percorremos os 15 km de ida
ouvindo as explicações do guia. Segundo ele, a Reserva Particular de Patrimônio
Natural – RPPN que pertence ao Sesc tem 108 mil ha e seu Dito é o único morador
autorizado a habitá-la. Do lado esquerdo do rio Cuiabá, o Sesc ocupa 4,4 mil ha,
onde mantém o hotel e complexo ecológico. Essa região não pertence à reserva,
portanto, diversas pousadas, portos, ancoradouros e casinhas de moradores e
pescadores são vistos ao longo da margem.
Num determinado trecho da margem, o guia aproximou o barco o
máximo que pôde e com um pedaço longo de madeira bateu numa árvore que se
debruçava sobre o rio. Os frutinhos identificados como acaiás foram muito
apreciados. Para mim, têm sabor de butiá, mas outros acharam parecidos com a
siriguela. Mesma família, talvez.
Chegamos ao rancho do seu Dito Verde, o Benedito Alves da
Silva. Quando perguntei a idade dele, pensei que ia me mostrar um documento,
mas o senhorzinho sorridente tirou da carteira um papel em que estava escrito o
número 71. Muito falante, gabou-se de ter começado a namorar aos 10 anos. Na
época, a Maria tinha 12 anos e morava numa casinha ao lado da dele, naquele
mesmo local de hoje. Ele conta que perguntou se ela queria namorar com ele e
ela respondeu: quero, onde? E lá veio risada.
De acordo com o relato animado, seu Dito casou-se aos 15
anos. Ela tinha 20. Foram muitas as mulheres e parece que ele se acha em plena
forma, porque se encantou com a nossa amiga Augusta, chegando a adaptar uma
música para ela. A viola de cocho que tocou não é a mesma que ele fabricou, há
muitos anos. Hoje em dia tem casa em Poconé e aquela na beira do corixo para
manter o contato com a natureza. Ele disse que foi ele mesmo quem ergueu
aquelas paredes de torrão de barro e telhado de palmeiras.
Navegando de dia, vimos bem as marcas da enchente do ano
anterior. De acordo com o guia, este ano falta o rio subir cerca de um metro
para igualar a cheia de 2018. Ele explicou que as inundações fertilizam o solo,
propiciando alimento aos animais e enriquecendo o solo. Sem o vai-e-vem da
água, a região seria um imenso deserto.
Voltamos ao hotel para almoçar. Às 13h, um monitor nos levou
para conhecer o spa. Circulamos pelo prédio branco e superequipado com piscina,
academia, salas de tratamento estético e terapêutico, circuito de caminhada sobre
pedras em uma lâmina de água e restaurante. Quem quis já agendou um
procedimento. Eu quis fazer a ducha Vichy e marquei para as 14h. Voltei para o
quarto, peguei roupa e me fui. Nossa, como é bom! A moça fez massagem com óleo,
depois fez a esfoliação e terminou com uma ducha de vários chuveirinhos presos
num cano que jorravam sobre o corpo todo. Escolhi a água bem morninha.
Terminei o tratamento e corri para o Centro de Interpretação
Ambiental (CIA). Cheguei a tempo de assistir a explanação da geóloga e monitora
ambiental Alessandra Yukawa sobre a fauna, a flora, a bacia hidrográfica e os
períodos do pantanal.
Ale começou a explicação com uma data: 1992. Ela nos
desafiou a responder sobre qual evento marcou esse ano e mudou a visão de
ecologia. Alguns souberam dizer que foi o ano da Rio 92, a conferência das
Nações Unidas sobre o meio ambiente no Rio de Janeiro. O Sesc nacional,
desejando contribuir com a preservação de
algum bioma brasileiro, escolheu a região alagada para desenvolver o projeto em
1996. Na época, depois de uma cheia intensa, as terras das fazendas ficaram
permanentemente alagadas. Imensas áreas do Mato Grosso ficaram desvalorizadas,
e o Sesc adquiriu os 108 mil hectares (equivalentes ao município do Rio de
Janeiro) para transformá-los em RPPN. Logo depois, foi comprado o terreno onde
funcionava a pousada transformada em hotel Sesc Porto Cercado.
Ale nos resumiu quanto foi possível a riqueza do bioma e o
trabalho delicado de preservação, sendo que a reserva já foi objeto de pesquisa
de incontáveis estudantes e especialistas. Conhecer para manter.
Devido ao tempo limitado, não conseguimos apreciar todo o
programa que a simpática moça gostaria de mostrar. Dali passamos para o
borboletário, onde ouvimos as explicações sobre o projeto desenvolvido.
Seu Antônio, se não me falha a memória é este o nome,
apontou as caixas onde são criadas as futuras borboletas, ali no laboratório,
até serem levadas para as 25 famílias credenciadas para cuidarem das larvas até
virarem casulo. No prazo que a natureza determina, estes casulos voltam para a
unidade e, em troca, essas famílias recebem um salário mínimo mensal.
O monitor, com jeitinho típico dos pantaneiros, explicou que
a função do borboletário é educativa e social. O ciclo que ele acompanha não
tem por objetivo repovoar a natureza ou diminuir a possibilidade de extinção de
alguma espécie. O que eles fazem ali é mostrar aos visitantes como é a vida das
borboletas da região e, se acaso aparecer algum espécime diferente, eles o
encaminham para estudo nas unidades específicas do governo federal. Para mim, o
mérito maior do projeto é possibilitar uma renda às famílias de menor poder
aquisitivo da região.
Após o jantar tivemos aula com o Zé Paiva numa sala do
centro de eventos. Vou escrever aqui apenas a dica 2: A regra geral para a boa
composição é a simplificação da imagem, a limpeza. Evite uma imagem poluída e
terá mais chances de fazer uma boa foto. “Simple is better. Less is more”.
Sexta-feira, 22 de
fevereiro
Tomamos um café da manhã bem simplificado, na lanchonete. Um
copo de café e alguns pães de queijo e fruta às 6h. Às 6h15 entramos no micro-ônibus
que nos levou ao caminhão para percorrermos parte da rodovia Transpantaneira, a
MT-060. Rodamos dois quilômetros pelo asfalto e depois mais 20 em estrada de
chão. Esta estrada tem 145 km de extensão, a partir de Poconé em direção ao
sul, na divisa com Mato Grosso do Sul. As 120 pontes da Transpantaneira são de
madeira, exceto duas, de concreto.
Percorremos um trecho a pé para melhor observar a fauna e a
flora locais. Só assim para perceber os jacarés nos alagados, os peixinhos, as
garças, os tuiuiús, gaviões e outros. Ouvimos o canto dos pássaros e paramos
para apreciar a algazarra das caturritas que habitam a mesma árvore onde os
tuiuiús fazem os gigantescos ninhos. Com meu equipamento fotográfico não pude
ver, mas a Astrid levou o binóculo e pudemos comprovar que as pequenas aves são
muito espertas. Qual o predador que se arriscaria a invadir um ninho daquele
tamanho? A árvore mais bonita que vimos com esta parceria foi um ipê rosa, que,
infelizmente para nós, não estava florescido.
Por mais que o assunto fosse o medo de cruzar com uma cobra,
não vimos nenhuma nem no caminho nem em toda a viagem, com exceção de uma
pequena avistada pela Elza, na entrada do prédio dos quartos do hotel. Sabíamos
que não seria fácil, mas ninguém ficou decepcionado. Foi igualmente muito
bonito, talvez a paisagem tenha sido o atrativo maior.
Quase ia esquecendo de dizer que nossa monitora foi a
Alessandra, a moça tão simpática quanto profissional que nos recebeu no Eixo
Ambiental na véspera. Ela chamou a atenção para as diversas plantas que vimos
pelo caminho. Cada árvore, cada moita, cada arbusto, ela sabia o nome e o
histórico. Lembro do papiro, que vi e achei que não era. Era, sim, mas Ale
disse que, apesar de terem sido trazidos de fora, são inofensivos na região. Mostrou
a floresta de cambarás, responsável pela presença das abelhas no local,
atraídas pela florada.
Outro detalhe que vale lembrar são os ninhos pendurados nas
árvores mais altas, como enfeites de Natal. Parecem um cilindro oco ou uma
bolsa de um tipo de palha seca. Podem medir até 70cm. O nome do construtor é
xexéu ou japuíra, um passarinho preto com amarelo. As fêmeas são cor de
fuligem.
Eu não vi macacos, nem capivaras, quatis etc. Tudo bem.
Motivo para voltar na seca.
A volta foi mais rápida, felizmente. O caminhão adaptado
para o passeio é bem cansativo.
Almoçamos no hotel e às 15h30 já saíamos de novo para
navegar pelo rio Cuiabá rumo ao corixo (igarapé na Amazônia e igapó no
nordeste) do Moquém.
Tivemos a sorte de apreciar o pôr do sol na volta do
passeio. Um pôr do sol como não tinha visto ainda, tão lindo.
Sábado, 23 de
fevereiro
Como é bom dormir até um horário normal! Tomamos café às 7h
para sair às 8h em direção a Poconé. O guia comentou que este nome tem origem nos
beripoconés, tribo de origem bororo/tapuia que vivia na região. Alguém perguntou
e ele respondeu que sim, há tribos habitando o norte do estado, mas não
poconés.
Paramos para tirar fotos no portal turístico e depois
seguimos para a cidade que – pasmem – tem 238 anos de fundação, mas parece
estacionada no século passado. Não vimos nenhuma escola. De acordo com o guia,
a cidade vive do extrativismo mineral, da pecuária (gado de corte) e turismo
ecológico. Para ilustrar a importância da mineração para a economia municipal,
ele nos levou ao Parque Temático de Mineração Beripoconé, uma antiga mina
desativada que foi transformada em logradouro público com o buraco de cinquenta
metros de profundidade inundado como atração principal, além da área verde ao
redor.
O guia mostrou-se preocupado com os rumos da exploração
mineral que abocanha os espaços particulares para cavoucar a terra em busca de
ouro. O rapaz, nascido e criado naqueles terrenos, teme o futuro. Depois de
conhecer o parque, seguimos de ônibus até a periferia da cidade. Por um bom
tempo não vimos a paisagem por causa dos tapumes que escondem o trabalho de
máquinas e homens nas minas. Seguranças armados vigiam o perímetro. Meio
assustador. Como assusta ver as montanhas de resíduo se acumulando onde deveria
haver vegetação nativa. Sem falar no impacto dos venenos na água da região,
especialmente o mercúrio. O rapaz lembrou que atualmente o mercúrio é menos
usado não por consciência ecológica, e sim pelo preço.
No caminho, uma pequena gruta abriga duas
imagens, às quais seu Jorge demonstra mais que respeito: é devoção pura a são
Sebastião. Ao lado, mais estragadinho, santo Antônio embala o Menino Jesus. O
vaqueiro revela o sonho de conhecer o Rio de Janeiro apenas porque o padroeiro
da cidade é seu santo de adoração. A parede interna da grutinha está pintada de
azul-esverdeado, com os bois e cavalos fazendo parte do cenário de flores e
mato. Uma singeleza emocionante.
Voltamos para a casa de alvenaria, bem cuidada. No alpendre
lateral, uma vasta mesa servia de mostruário para as especialidades da esposa
dele, Rita. Doces de mamão e abóbora, cachaça, entre outros produtos, saídos da
cozinha artesanal e um tanto primitiva, nos fundos da casa. Quase todos nós
compramos algo para agradecer a acolhida. Para encerrar a visita, os donos da
casa cantaram duas modas bem tristes. Uma delas era assim:
Franguinho na Panela
(Lourenço e Lourival)
No recanto onde moro é uma linda passarela
O carijó canta cedo, bem pertinho da janela
Eu levanto quando bate o sininho da capela
E lá vou eu pro roçado, tenho Deus de sentinela
Têm dia que meu almoço, é um pão com mortadela
Mas lá no meu ranchinho a mulher e os filhinhos
Tem franguinho na panela
Eu tenho um burrinho preto bom de arado e bom de sela
Pro leitinho das crianças, a vaquinha Cinderela
Galinhada no terreiro papagaio tagarela
Eu ando de qualquer jeito, de botina ou de chinela
Se na roça a fome aperta, vou apertando a fivela
Mas lá no meu ranchinho a mulher e os filhinhos
Tem franguinho na panela
Quando eu fico sem serviço a tristeza me atropela
Eu pego uns bicos pra fora, deixo cedo a corrutela
Eu levo meu viradinho é um fundinho de tigela
É só farinha com ovo, mas da gema bem amarela
É esse o meu almoço, que desce seco na goela
Mas lá no meu ranchinho a mulher e os filhinhos
Tem franguinho na panela
Minha mulher é um doce diz que sou o doce dela
Ela faz tudo pra mim, e tudo que eu faço é pra ela
Não vestimos lã nem linho é no algodão e na flanela
É assim a nossa vida, que levamos na cautela
Se eu morrer Deus dá um jeito, mais a vida é muito bela
Não vai faltar no ranchinho pra mulher e os filhinhos
O franguinho na panela
Num outro dia, alguém do grupo
comentou que seu Jorge admitiu vender suas terras para a companhia mineradora
de um canadense, que está adquirindo os sítios por um preço generoso. Ele
argumentou que não tem como enfrentar os poderosos. E nós pensamos no futuro
daquela nascente de água.
Retornamos ao ônibus, de volta ao
hotel. Claro que paramos para comprar umas lembrancinhas numa loja bem
instalada na cidade. Diferente da anterior, que visitamos no dia do passeio
pela Transpantaneira, onde tudo era bem artesanal. Esta não, tinha produtos e
preços de cidade grande.
Depois do almoço descansamos um
pouco para voltar a navegar. Desta vez, viagem curta, de cinco minutos, para
fazermos a trilha do Tatu. Que não tem nada a ver com o tatu que habita estes
matos, disse o guia bem animado. É que no local foram encontrados os
marimbondos-tatus. De fato, encontramos as casas deles nos troncos das árvores
que parecem um tatu mesmo.
A trilha não poderia ser mais
tranquila. Uma passarela de madeira erguida como palafita, com corrimão em
apenas um lado, permite caminhar sem precisar ficar de olho onde pisa. Não
vimos o jacaré que o guia apontou como fêmea a vigiar os ovos, no emaranhado da
vegetação. Zé Paiva tentou fotografar, sem sucesso. De resto, ouvimos o canto
dos pássaros, respiramos o ar puro da mata e chegamos ao fim do quilômetro onde
o grupo foi dividido para subir no mirante de madeira. Metade esperou embaixo, descansando,
enquanto os demais fotografavam a paisagem deslumbrante.
E dizer que em poucos meses o rio
baixa e a seca mata de sede os animais da região... Enfim, quase todos subiram
ao topo do mirante e tiveram a oportunidade de fixar na memória um cenário de
luz e cor inigualável.
Voltamos, ainda sem ver nenhuma
anta, nenhuma onça, nenhuma capivara, e os macacos que gritavam ao longe e
balançavam os galhos sumiram. Mas conhecemos a árvore novateiro, ou
pau-de-novato, ou pau-formiga, e fomos bem avisados para não tocá-la. É uma
árvore que serve de abrigo a formigas cujas picadas ardem bastante, quando se
encosta nela. Isto é o verdadeiro mutualismo, quando dois seres vivos se
beneficiam um do outro. A formiga recebe a seiva da árvore, que recebe
proteção. A natureza é uma perfeição.
Jantamos pontualmente às 19h para
às 20h estarmos prontos para o passeio pelo rio, chamado “focagem noturna”. Não
sei se foi o melhor passeio que fizemos porque havia uns bichinhos parecidos com
moscas que entravam pela roupa da gente e até no nariz e boca. Vinham atraídos
pela luz. Uns desmancha-prazeres.
Navegar na completa escuridão da
noite é uma experiência intensa. Em momentos não se vê nada. No silêncio, nem
os pássaros sinalizam se estamos próximos à margem ou longe. Como era cedo,
tivemos uma hora antes de a lua surgir no horizonte. Nosso guia acendia o farol
e perscrutava à direita e à esquerda, à procura de algum animal. Vimos ao longe
duas luzinhas na água, que foram identificadas como olhos de jacaré. Quando
chegávamos perto, o bicho afundava suavemente.
Lá pelas tantas, depois de
acostumarmos nossos olhos ao breu total, podíamos distinguir no céu uma
infinidade de estrelas e um tipo de nevoeiro estrelar como eu nunca tinha visto
antes. Disse o guia, bem como falou o Zé Paiva, as luzes das cidades poluem o
céu e diminuem nossa capacidade visual. Depois de uns 10 minutos, nosso cérebro
fica novamente capaz de distinguir o brilho das estrelas. E nesse momento é
fantástico olhar para o céu. Perde-se a noção de tempo, de espaço, de história
pessoal. Somos apenas nós e o firmamento tremeluzindo lá em cima.
Na volta, observamos alguns
pássaros que foram prontamente identificados pelo guia, um pantaneiro de raiz e
sentimento. Não tinha como confirmar, mas acredito nele. Voltamos naquela
navegação quase às cegas, muito satisfeitos com o passeio que, se não rendeu
fotos, alimentou nossa memória ancestral, de um tempo em que enxergávamos como
os animais e não tínhamos medo do escuro.
Domingo, 24 de fevereiro
Teoricamente dia livre em que a
maioria pagou pelo passeio do alvorecer no rio Cuiabá. Mesmo trajeto do primeiro
dia, mas outra experiência. Ainda sem quantidade significativa de avistamentos,
o que fez valer a pena ter saído às 4h30 da cama foi o nascer do sol. Uma
pintura, uma sinfonia, uma obra de arte de fazer chorar de tão linda. Vimos as
mesmas garças-mouras, biguás, cafezinhos, pombas, urubus, gaviões. Mas vimos os
bugios meio sonolentos, nas copas das árvores, bem como os macacos-prego. Uns
lagartos estranhos se camuflavam nos galhos de árvores e arbustos. Tudo muito
brilhante e deslumbrante, como se a natureza tivesse tomado um banho de luz
quando o sol apareceu no horizonte.
Retornamos para o hotel com tempo
livre para descansar ou aproveitar os atrativos. Mas nosso grupo, que é
porreta, quis ver o nascimento das borboletas. E fotografar a saída do casulo
até estar pronta para voar. Foram muitos minutos, se não horas, nesta paciente
observação. Nada como observar o ciclo de vida dos bichos para comparar com o
ser humano tão alheio ao verdadeiro, ao real e importante. Sentei-me num banco
para tomar notas mentais do que via. Com exceção do meu grupo, que observava e
fotografava as crisálidas e as recém-nascidas, todos que entravam no
borboletário só estavam interessados em tirar selfies na paisagem.
Não vi um pai, uma mãe apontar para
o filho o que aquele momento significava. Fotos, apenas imagens deles próprios.
Nem sei se viram as borboletas.
Depois desses momentos de
contemplação fui fazer uma massagem com bambus. Nada de mais, apenas relaxante.
Antes, andei pela lateral da piscina para receber os jatos de água no corpo.
Arrumei-me lá mesmo, no Espaço Vida & Saúde, e fui para o almoço-degustação
no spa. Muito gostoso, bem típico da região. Apenas há demora demais entre os
pratos. Deve ser para conversarmos mais.
À tarde cada um continuou a fazer o
que queria. Passeei pelo espaço de caminhadas do hotel, na esperança de ver a
tal sucuri que dizem que mora no lago. Só vi o jacaré de sempre. Tomamos
cerveja enquanto os mosquitos permitiram e fomos jantar, seguido o checkout.
Ainda bem que foi mudado o horário de saída para o aeroporto. Em vez 5h,
poderemos tomar café às 7h desde que as malas já estejam prontas para serem
embarcadas na carretinha da van. E foi o que fizemos.
Segunda-feira, 25 de fevereiro
A volta foi meio apressada. Vimos o
pássaro-símbolo do Mato Grosso, o tuiuiú, e a garça-moura solitária. Alguns
outros pássaros ali e acolá. O motorista parou para dois quatis atravessarem a
estrada. E fomos direto para o aeroporto de Cuiabá, onde embarcamos meio
atrasados por culpa da Gol, não nossa, porque fomos pontuais sempre. Acertamos
os relógios ao chegar em Gurarulhos para recuperar a hora perdida na ida. Foi o
tempo de achar o portão, fazer um lanche rápido e embarcar novamente, para
Florianópolis.
A viagem terminou. A experiência
vai ser revivida em cada foto que postarmos nas redes sociais ou vermos em
nossos arquivos. Não há viagens iguais, muito menos uma expedição fotográfica
semelhante a outra. Fomos muito felizes ao compartilhar a alegria, o
entusiasmo, a disposição de aprender, o gosto pelo novo. Fomos abençoados com a
energia positiva de um líder preparado em conhecimento, generosidade e
espiritualidade.
Agradeço a todos os parceiros de
etapa de vida. Corrijam-me, se omiti ou errei algum detalhe.
























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